sexta-feira, 2 de abril de 2021

De outros Dias Internacionais do Livro Infantil

 

Pescadores de Palavras 

(Oficina de escrita para crianças)

Hoje conheci um poeta. Não sei se poeta à força, se não. Ficou a dúvida.

Entrou atrasado, olhos sonolentos, cabelos compridos em desalinho como as ondas do mar, fosse o mar negro. Bom dia! – disse em voz sumida – peço desculpa pelo atraso. Ficámos presos no trânsito…

Sentou-se. Percebeu depressa que se falava de poesia. Levantou o dedo a pedir a palavra – Eu escrevo poemas. Todos os dias escrevo poemas…

Tendo terminado a tarefa proposta, para a sessão de hoje, antes dos demais, sugeri-lhe que escrevesse um poema. Por momentos pareceu-me confuso, hesitante: - os meus poemas são sobre a minha vida, o que tenho no coração... não sei se… se...

- Muito bem, escreve então.

À saída, demorou-se o bastante para que a sala ficasse vazia. Queria dar-me o poema; a folha dobrada em quatro, na sua mão. Sem que lho pedisse, ajudou-me a arrumar. - De onde és? Não foi preciso perguntar muito mais. - Moro na Trofa há pouco tempo, mas nasci em Braga. Todos os meus amigos estão aqui e a minha mãe também trabalha cá. – Cá, na biblioteca? – Não, na cidade. E como agora não há aulas, tenho de vir com ela, todos os dias.

Fui percebendo que passa o tempo na biblioteca; está inscrito em todas as atividades propostas para crianças. Gostou da de hoje, mas não gostou de ter chegado atrasado…

- Ontem, à tarde, foi Filosofia e Ciência – comentou - adorei! Mal cheguei a casa fiz uma experiência e consegui ver o coração de um bicho-de-conta. Perante as minhas interrogações (desconchavadas, obviamente), garantiu-me que o bichinho continua alegre e de boa saúde, mas não soube contar-me se, sendo o bicho-de-conta um crustáceo como o camarão, tem como este o coração na cabeça, onde mora a Imaginação. Certo, certo é que o “bicho-de-conta” do meu poema, que tinha acabado de ser lido, não sabe contar. Coincidências, pois claro!

Despedimo-nos, o espaço já deserto de crianças. Ainda lhe perguntei o que faria a seguir. Baixou os olhos, encolheu os ombros. - Vou ler qualquer coisa, à tarde vai haver “Brincar na Filosofia”. Vai ser fixe! E depois, espero pela minha mãe. - E o almoço? – Eu trouxe.

Antes de sair entregou-me a folha dobrada – é só uma quadra!

Desdobrei-a:

 

“A minha vida é muito boa

Tenho no coração uma flor

Estou em construção

Não sinto nenhuma dor.”


"Sentir, sinta quem (vê) lê."


(REEDITADO)