Apercebemo-nos então daquela sensação estranha do “tudo dito”, um esvaziamento que nos desola, numa primeira fase, mas que acaba por nos colocar, de novo, nos trilhos da viagem. A minha é agora leitura.
Em A Bagagem do Viajante, José Saramago
escrevia:
E ali ficamos, não sei
quanto tempo, recebendo em cheio a luz viva do céu, no meio da campina deserta.
Calados voltámos ao carro. O motor começou a trabalhar, as rodas esmagavam o
saibro das bermas. A viagem continuava. Virei a cabeça para o meu lado esquerdo
e estremeci. Depois, num relance, olhei os amigos. Então, sorrindo como um
homem feliz, voltei-me para a estrada. Passei os dedos devagar pelo rosto, como
quem tateia a barba e ouvi distintamente o estilhaçar fino da luz que o cobria[…]
A
viagem é de regresso a casa. O retorno é parte integrante da viagem, um complemento
natural ao ato de partir. Chegar é sempre o reencontro com o lugar de pertença, as
origens, o momento da descoberta das estrelas, para que se efetue o seu reconhecimento em consciência, isto é, a identificação do que, existindo desde sempre, se vai perdendo na voragem dos dias. Trata-se de observar, transfigurando embora, para
que as nossas coisas e as coisas do mundo se desenrolem com maior nitidez.
Olhamos. O céu negro como
só o azul pode ser, está alagado de luz, é um rio claro que palpita docemente e
há no ar uma espécie de frémito que é quase um som, um zumbido interminável
como se todos aqueles astros estivessem comunicando entre si numa linguagem de
que só entendemos a música, mas não o sentido.
É preciso olhar outra vez, mais uma vez e outra para redescobrir o que nos cerca e que, de tão próximo, se torna invisível.
