quinta-feira, 1 de abril de 2021

Caderno de notas

 


Apercebemo-nos então daquela sensação estranha do “tudo dito”, um esvaziamento que nos desola, numa primeira fase, mas que acaba por nos colocar, de novo, nos trilhos da viagem. A minha é agora leitura.

 

Em A Bagagem do Viajante, José Saramago escrevia:

 

E ali ficamos, não sei quanto tempo, recebendo em cheio a luz viva do céu, no meio da campina deserta. Calados voltámos ao carro. O motor começou a trabalhar, as rodas esmagavam o saibro das bermas. A viagem continuava. Virei a cabeça para o meu lado esquerdo e estremeci. Depois, num relance, olhei os amigos. Então, sorrindo como um homem feliz, voltei-me para a estrada. Passei os dedos devagar pelo rosto, como quem tateia a barba e ouvi distintamente o estilhaçar fino da luz que o cobria[…]

 

A viagem é de regresso a casa. O retorno é parte integrante da viagem, um complemento natural ao ato de partir. Chegar é sempre o reencontro com o lugar de pertença, as origens, o momento da descoberta das estrelas, para que se efetue o seu reconhecimento em consciência, isto é, a identificação do que, existindo desde sempre, se vai perdendo na voragem dos dias. Trata-se de observar, transfigurando embora, para que as nossas coisas e as coisas do mundo se desenrolem com maior nitidez.

 

Olhamos. O céu negro como só o azul pode ser, está alagado de luz, é um rio claro que palpita docemente e há no ar uma espécie de frémito que é quase um som, um zumbido interminável como se todos aqueles astros estivessem comunicando entre si numa linguagem de que só entendemos a música, mas não o sentido.

É preciso olhar outra vez, mais uma vez e outra  para redescobrir o que nos cerca e que, de tão próximo, se torna invisível.