terça-feira, 6 de abril de 2021

"Poemas Tangerinos"


 Ofereceram-me hoje o Poemas Tangerinos do João Pedro Mésseder. Desde Eugénio de Andrade, (Frutos):

Pêssegos, pêras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,  
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

que nunca mais a tangerina foi somente um fruto de comer por comer, como não o é ainda a melancia, cf. um dia a escrevi:

ah, como me delicia

a palavra melancia,

tão doce no soletrar

como no paladar, 

uma fatia da polpa

vermelha

que ela nomeia, 

a aguar.

 

 Mal entrei em casa comecei logo a saborear, gomo a gomo, todos os “poemas tangerinos” que me tinham dado. Tendo as crianças como público alvo, não me senti excluída, de modo nenhum, já que todos os bons livros para crianças são bons livros para todos, especialmente para mim, que tenho uma paixão extremosa por “pequenices”. E, devo dizer, em abono da verdade, que indo eu a caminho da infância, outra vez, sinto toda a liberdade de gostar do que gosto sem limites nem reservas.  

Lidos todos os poemas, fiquei mesmo com água na boca. Ainda bem que havia algumas tangerinas na fruteira da cozinha. Foi engraçado sentir na boca aqueles pedacinhos de versos sumarentos, tão docinhos e frescos.

 

Fiquei com pena de não ter sido eu a escrever estes melodiosos "tangerinos". O João Pedro antecipou-se. Acontece, por vezes:

Um sol

 

Há um sol adormecido

Em cada tangerina

Um sol que se abre ainda

Em certas noites de março

E em gomos se reparte

Pela minha boca e pela tua.

 

João Pedro Mésseder (2021:p.11), Poemas Tangerinos.