Este livro de António Ramos Rosa é de um tempo em que os poetas não tinham ainda medo de amar e de homenagear outros poetas e suas obras.
Todos os 85 poemas que constam de Os Signos da Amizade são escritos com palavras delicadas, dedicadas a um amigo-poeta, cuja poesia "tocou" Ramos Rosa, o encantador de palavras luminosas. A Amizade é aqui tratada com sensibilidade extrema e, por isso, irradia brilhos intensos como sóis acesos no meio da noite.
Pessoalmente não tenho medo nenhum de dizer bem, de mostrar o meu apreço, a minha reverência e, sobretudo, a minha gratidão, sempre que encontro poemas que vêm ter comigo como se me conhecessem, como se "todas as [t] suas palavras [são]fossem afagos / sobre seixos por onde passam as águas fiéis".
Mas, claro está, eu não sirvo de exemplo, pois fica-me muito larga a roupagem de alguns poetas, porém, devo dizê-lo, a de outros, aperta-me de tal maneira que, simplesmente, não poderia usá-la. E não uso.
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No lugar do título: Para Adelino Ínsua
Entre o real e a imagem
há uma dália de sangue com veios de vento
Tu segues o fluir da metáfora ascendente
até atingires a coroa da água de uma limpidez azul
Por isso cada verso é uma lâmpada com antenas vermelhas
que derramam uma chuva cálida de flores
Num sucinto desenho vês as cavalas de uma peixeira
e os líquenes com rendas solares
porque todas as tuas palavras são afagos
sobre seixos por onde passam as águas fiéis
e sobre as áleas de cimento ou pedra
que as relampejantes lagartixas atravessam
António Ramos Rosa (2004:p.16), Os Signos da Amizade, ASA.
