quarta-feira, 28 de abril de 2021

Sobre a Amizade


    Este livro de António Ramos Rosa é de um tempo em que os poetas não tinham ainda medo de amar e de homenagear outros poetas e suas obras. 

Todos os 85 poemas que constam de Os Signos da Amizade são escritos com palavras delicadas, dedicadas a um amigo-poeta, cuja poesia "tocou" Ramos Rosa, o encantador de palavras luminosas. A  Amizade é aqui tratada com sensibilidade extrema e, por isso, irradia brilhos intensos como sóis acesos no meio da noite.   

Pessoalmente não tenho medo nenhum de dizer bem, de mostrar o meu apreço, a minha reverência e, sobretudo, a minha gratidão, sempre que encontro  poemas que vêm ter comigo como se me conhecessem, como se  "todas as [t] suas palavras [são]fossem afagos / sobre seixos por onde passam as águas fiéis". 

Mas, claro está, eu não sirvo de exemplo, pois fica-me muito larga a roupagem de alguns  poetas, porém, devo dizê-lo, a de outros, aperta-me de tal maneira que, simplesmente, não poderia usá-la. E não uso.

***

No lugar do título: Para Adelino Ínsua


Entre o real e a imagem

há uma dália de sangue com veios de vento

Tu segues o fluir da metáfora ascendente

até atingires a coroa da água de uma limpidez azul

Por isso cada verso é uma lâmpada com antenas vermelhas

que derramam uma chuva cálida de flores

Num sucinto desenho vês as cavalas de uma peixeira

e os líquenes com rendas solares

porque todas as tuas palavras são afagos

sobre seixos por onde passam as águas fiéis

e sobre as áleas de cimento ou pedra

que as relampejantes lagartixas atravessam 


António Ramos Rosa (2004:p.16), Os Signos da Amizade, ASA.