Deparo-me com os seus olhos azuis, hialinos hoje que o dia lhes empresta uma extraordinária claridade. Fico presa a essa cor sem cor e sinto pena de não saber miar para lhe pedir em gatês, sua língua de origem que deixe de me presentear com passarinhos mortos. Eu sei que, com o avançar da idade, ele tem maior necessidade de demonstrar a gratidão que sente pelo bem-estar que lhe proporciono, trazendo-me troféus de caça. Porém, nos últimos dias, o seu instinto predador anda apuradíssimo e eu já não sei como evitar o desconforto que se apodera de mim, sempre que sou confrontada com a bestialidade que a Natureza, quer queiramos, quer não, oculta do lado de lá do Belo onde qualquer poema tem sérias dificuldades em se explicar.
Há dias, estando eu a ler posta em sossego,
fui subitamente interrompida por uma acesa algazarra de asas e estridências ornitológicas, vinda dos lados da cozinha. Inquietei-me naturalmente, adivinhando a origem da tragédia. Comovo-me sempre na eminência da morte, mesmo
sendo a de um passarito que repentinamente se vê imobilizado nas vertiginosas garras
de um felino, contra o qual não tem qualquer hipótese de defesa. Um felino que, de barriga cheia, mata.
Corri à cozinha e percebi logo que não
me enganara. O predador, entretanto, largara a presa e fixava-me com todo o azul em
riste e o pelo eriçado. Adquirira, contudo, uma postura defensiva, plantando-se
entre mim e o armário junto do qual tremia a pobre avezinha. Entre mim e ele (o
senhor gato) há, sempre houve, esta incompatibilidade antiga, sem remedeio nem solução:
nas espécies animais admito que matar como meio de subsistir seja até aceitável.
Afinal, na selva a lei do mais forte sempre imperou, mas tudo que ultrapasse
essa norma é, no tribunal do meu entendimento, punido com pena máxima, sem
direito a recurso. O meu gato sabe disso e está, como faz questão de comprovar, em absoluto desacordo.
Bem, lá peguei no pássaro com todo o cuidado. Respirava ainda, mas tinha uma asa completamente ensanguentada. Acalentou-me uma esperança vaga de que não estivesse partida.
Estou irritada e sinto-me um pouco ridícula a lavar, limpar, desinfetar, mas não posso deixar de o fazer. Vem-me à ideia um texto da infância, (Nunca se faça mal… à linda graça de um passarinho…). Levei-o até ao exterior, esperando que conseguisse voar. Tentou, caiu uma e outra vez. - Precisas de internamento – comuniquei-lhe. Deixei-o numa caixinha de cartão com água fresca e umas migalhas de pão, sobre o estendal, a salvo do gato e, de onde o pássaro, ferido como estava, não deveria tentar sair.
Quando, passado algum tempo, me lembrei
de ir espreitá-lo, já na caixa não havia sinais de pássaro algum. O gato dormia no cadeirão de verga um sono de "anjo".
Não fossem as penas espalhadas no chão e... eu acreditaria ainda ser possível mudar o mundo ou, pelo menos, mudar o curso de certas inevitabilidades.
Lídia Borges
