A inteligência ardeu como uma vinha
de uvas transparentes na tua raça.
Pablo Neruda
I
Terei de atravessar o céu e o mar
para ouvir o coração
mais uma vez?
II
Bastava recolher alguns ingredientes
que sempre guardo de reserva
na despensa:
água do mar q.b.,
alguns peixes prateados,
algumas conchas,
uma estrela do mar
para enfeitar,
uma salada de brisas e brumas
seria perfeito para jantar.
III
Mas, por ora,
fico-me pel' as uvas e o vento
e a tinta acromática das nuvens e tormentos
de um país de mar e lágrimas,
cheiro de vinhedos
e flores de laranjeira marinhas
Um país sem navios
nem marinheiros
para as viagens por inventar.
Lídia Borges
Epígrafe: do livro As uvas e o vento (Abril, 2007:p. 239), Pablo Neruda, trad. Albano Martins.
