segunda-feira, 21 de junho de 2021

Verão


A esta hora já uma janelinha se abre a oeste, oferecendo um pouco de luz à nevoenta manhã. Cheira a chuva, a terra molhada e a manjerico, no pátio. O verão chega de mansinho, cheio de boas intenções. Parece procurar apenas dar um pouco mais de cor às coisas, alindar a festa dos pardais e, aos corpos doridos, libertá-los de reumatismos, marasmos e ferrugens.  Das nuvens baixas que agora o cercam, do cinzento esfumado, aqui e ali, a branco e âmbar,   nada restará, mais tarde. Há de querer tomar posse de todas as virtudes, desvirtudes e devaneios próprios, o verão. Há de querer abusar dos esmeraldinos salsos e dos azuis plenos de céu, de viagens e de sonhos adiados. Há de querer incendiar, devastar, encher de calor e suor todas as coisas ao alcance de suas mãos chamejantes e cruas.

Por agora, vem de mansinho, ameno, ternurento, até. Vem embalar-nos o sono e o ócio, enquanto uns raios de sol ainda frouxos, intentam descerrar as cortinas, nuvens perfiladas, como guarda de honra, a suavizar o seu regresso.

Lídia Borges


(pintura de minha autoria, óleo sobre tela 80X60)