Quando o verão se aproxima
ascendendo vagarosamente o muro,
o vento, como um menino de calções,
alegra-se e corre sem pressa de chegar.
Gatos e pássaros
praticam seus intermináveis jogos
de toca e foge.
Nem uns nem outros suspeitam sequer
que os tornamos, neste instante, poesia.
Imprudentes que somos,
não paramos de tropeçar
no canto nascente dos frutos
e na música que bate nas folhas
e ganha forma de asas.
Tropeçamos em seus voos
como em primordiais assombros
e ficamos.
Rumores de água
exageram nos ouvidos
o sopro das tardes de barcos e búzios
e castelos de areia
contra o sal das espumas.
Bailam baloiços ao longe
e as lendas
prometem confluir num
mesmo ponto de luz
que há de denunciar as coisas anónimas
que nos trespassam.
Lídia Borges
(pintura: Vicente Romero Redondo)
