terça-feira, 8 de junho de 2021

E ficamos

 


Quando o verão se aproxima

ascendendo vagarosamente o muro,

o vento, como um menino de calções,

alegra-se e corre sem pressa de chegar.

Gatos e pássaros

praticam seus intermináveis jogos

de toca e foge.

Nem uns nem outros suspeitam sequer 

que os tornamos, neste instante, poesia.

 

Imprudentes que somos,

não paramos de tropeçar

no canto nascente dos frutos

e na música que bate nas folhas

e ganha forma de asas.

Tropeçamos em seus voos

como em primordiais assombros

e ficamos.

 

Rumores de água

exageram nos ouvidos

o sopro das tardes de barcos e búzios

e castelos de areia

contra o sal das espumas.

 

Bailam baloiços ao longe

e as lendas

prometem confluir num

mesmo ponto de luz

que há de denunciar as coisas anónimas

que nos trespassam.


Lídia Borges

(pintura: Vicente Romero Redondo)