Estou na fila 5, cadeira 19. Que coisa esta! Um filme, claro.
Devo ser um figurante no meio das filmagens. – Por aqui, venha,
sente-se e espere. Ui.. Ui… Ui…Vocês aí, parem, parem! Têm de ficar sentados.
Não, não, não, por aí, não. Caminhem afastados para ali. O indicador
espetado no ar e a voz empenhada cumprem na perfeição o papel de
"arrumadores" de pessoas que lhes cabe.
Sinto-me fatigada, tentada a “desligar”, mas quero perceber a dinâmica
do processo. Do meu lado esquerdo quatro filas de cadeiras, todas ocupadas; do
direito algumas vazias às quais se seguem várias outras filas onde se vão
sentando os que chegam, seguindo as indicações dos “soldados” de serviço. No
piso superior, uma voz gritada ao vivo, anuncia: 424, mesa 3… 425, mesa 1… 440,
mesa…. Parece um martelo demolidor. Deixo-me deslizar devagar para dentro da cadência
da contagem até que a campainha - trrim…trrrim…trrrim…. Automaticamente, as
pessoas da fila 1, 20 ao todo, (sim, contei-as, eram 20, mesmo), levantam-se a
um só tempo e lá vão, passo a passo 1, 2… 1, 2…1,2, umas atrás das outras, com
a distância devida entre elas. Veio-me à memória o grupo de ginástica
desportiva do liceu, do qual fiz parte, mas atrás de mim alguém, com critério
mais ajustado, talvez, referia-se ao exército. Percorrem o espaço entre filas
até à porta, adiante, em passada coordenada e ritmo lento. Deixo de os ver, por
momentos, mas volto a localizá-los, lá em cima, do lado esquerdo, onde a voz,
498… mesa 6…503….mesa, 4… parece cada vez mais vigorosa. Seria uma
excelente aposta para cantar a lotaria clássica da Santa Casa.
Olho, outra vez, a senha que tenho na mão. Nada mudou desde que a consultei
da última vez. Lá estava o 603, afirmativo, inalterável. Elevando um pouco a
cabeça, posso observar, atrás do varandim, em cima, grupos mais pequenos de
“condenados” que passam diante de outras mesas, estas com gente de bata branca,
focada nos computadores. Alongo o movimento da cabeça para a direita: depois
das cabines, há mais e mais cadeiras, mais e mais filas e mais e mais pessoas.
As máscaras a uniformizá-las. Formam uma multidão, vistas do lugar onde estou.
Reparo, apreensiva, que ninguém fala com ninguém. Cada um está só, consigo e
com o seu telemóvel. Não obstante, ali, parece mais tranquila a respiração. Lá,
bem no extremo norte do pavilhão, é a saída. Algumas pessoas em passo rápido dirigem-se
para lá. Poucas, a espaços largos. Pergunto-me por que razão seguem ainda em
fila, de três ou quatro elementos, quando já nada justifica tal procedimento.
Que coisa esta! E se nos fica o jeito?
Trrim…Trrrim…Trrrim… Levanto-me, agora. Reparo que todos os da minha fila,
sem exceção, saíram para o lado esquerdo da cadeira onde estavam sentados e
isso parece-me insólito, surreal. Ponho-me a considerar a hipótese de, afinal,
eu não estar ali, mas na minha cama, no meio de um sonho do qual posso acordar,
a qualquer momento.
Entretanto sigo na fila. À minha frente vai um homem de calças de pijama e
pantufas, tudo combinado com uma camisa branca, bem engomada, apertada até ao
pescoço, acabo de o constatar, agora que se voltou para trás. Deve ter um papel especial no filme – deduzo - ou no sonho. Ou talvez
tenha sido arrancado, de repente, ao teletrabalho. Pensando bem: acho que o
conheço de “Voando sobre um ninho de Cucos”. Este pensamento causa-me uma
sensação claustrofóbica que tento sacudir. Continuo a subir a escada, em fila,
e volto a sentar-me nas cadeiras, em fila, e passo pelas mesas sem
computadores, em fila, e depois pelas mesas com computadores, em fila, e pelas
cabines, em fila. Chamam-me para a que tem o n.º 7, a penúltima da fila. A
enfermeira tem um ar cansado, a seringa na mão, já carregada. Pergunto-lhe como
se sente, ali, a picar braços, uns atrás dos outros, como se numa linha de
montagem, injetando o soro mágico [que tornará os robôs mais resistentes e
eficientes] – esta parte entre parêntesis foi só pensada, não dita. Riu
(os olhos também). Foi quando olhou para mim, não para o meu braço, e declarou:
“não custa nada”.
Agradeci e desejei-lhe bom trabalho. Retribuiu com um bom dia e recomendou que tomasse paracetamol, caso fosse necessário.
E se nos fica o jeito?
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Aviso: isto não é para ser literatura.
Lídia Borges
(imagem: pesquisa s/ ind.. autoria)
