sexta-feira, 18 de junho de 2021

Ora, ora!

 


Tão iguais são dias e noites

que deixaste de crer nos relógios.

E, tantas vezes,

quando dás por ti devias estar a dormir,

quando dás por ti devias já ter acordado,

quando dás por ti

reparas que o "devias" ruiu num baque surdo

como um muro velho soprado pelo vento.


Pertences agora a essa raça de mulheres seguras,

mulheres que não precisam de se preocupar

com o que vestem, o que calçam,

que receberam das mãos sábias do tempo

o direito de ver  e ser... genuinamente, 

de estar à vontade diante do mundo

sem espaço para rótulos, julgamentos,

juízos de valor.

Pertences agora ao grupo de mulheres mais livres

porque não espiadas nem apontadas nem perseguidas, 

por  bacocos paternalismos

ou pelos olhos pérfidos do desejo.


Uma santa forma de liberdade, diria,

uma coisa nova que se experimenta, 

unicamente, às portas da velhice. 

 

Quem disse que ela, a velhice, 

era desprovida de encantos?

Ora, ora! 


Lídia Borges


(imagem: pesquisa Google s/. ind. autoria)