Tão iguais são dias e noites
que deixaste de crer
nos relógios.
E, tantas vezes,
quando dás por ti devias estar a dormir,
quando dás por ti devias já ter acordado,
quando dás por ti
reparas que o "devias" ruiu num baque surdo
como um muro velho soprado pelo vento.
Pertences agora a essa raça de mulheres seguras,
mulheres que
não precisam de se preocupar
com o que
vestem, o que calçam,
que receberam das mãos sábias do tempo
o direito de ver e ser... genuinamente,
de estar à
vontade diante do mundo
sem espaço para rótulos, julgamentos,
juízos de valor.
Pertences agora ao grupo de mulheres mais livres
porque não espiadas nem apontadas nem perseguidas,
por bacocos paternalismos
ou pelos olhos pérfidos do desejo.
Uma santa forma
de liberdade, diria,
uma coisa nova que se experimenta,
unicamente, às portas da velhice.
Quem disse que ela, a velhice,
era desprovida de encantos?
Ora, ora!
Lídia Borges
(imagem: pesquisa Google s/. ind. autoria)
