Isto de abusar da falta de poesia
ainda vai acabar mal, um dia.
Deixar passar em branco
aves da saudade, linhas de avião,
estrondo de trovão,
faíscas e estrelas.
(De que constelação?)
Deixar passar em branco
os frutos repetidos do pomar
a vinda do verão
as ruas que dão para o mar.
As cerejas… As cerejas, deus meu,
um rubor como nunca se viu.
Deixar passar em branco
as rosas, as hortênsias,
graves, graves imprudências.
Isto de abusar da falta de poesia
ainda vai acabar mal, um dia.
O poeta empobrece.
A sombra em torno da face
de solidão se abastece.
Ai que dor, que heresia
a vida sem poesia.
Lídia Borges
