terça-feira, 15 de junho de 2021

Poesia



Isto de abusar da falta de poesia

ainda  vai acabar mal, um dia.

 

Deixar passar em branco

aves da saudade, linhas de avião,

estrondo de trovão,

faíscas e estrelas.

(De que constelação?)

 

Deixar passar em branco

os frutos repetidos do pomar

a vinda do verão

as ruas que dão para o mar.

As cerejas… As cerejas, deus meu,

um rubor como nunca se viu.

Deixar passar em branco

as rosas, as hortênsias,

graves, graves imprudências.

 


Isto de abusar da falta de poesia

ainda vai acabar mal, um dia.

 

O poeta empobrece.

A sombra em torno da face

de solidão se abastece.

Ai que dor, que heresia

a vida sem poesia.


Lídia Borges