Há versos ditos eruditos
vazios como um côco oco.
Porém, quando levados ao fogo
na frágua certa
saem de lá cheios que nem ovos.
De quê?
Ninguém sabe bem,
mas também ninguém duvida
do seu valiosíssimo conteúdo
que os distingue de todos os outros
escritos, enfim,
no idioma do falar “vulgar”
que todos entendem.
A mão que escreve o poema
já não é a que acarinhou, criou
a que arou, semeou, regou…
mas a que folheou mais páginas
em alheamento do agora,
a que permitiu que se tornasse pó
o parlar materno, a água mais pura
que, de boca em boca, canta ainda,
baixinho,
na raiz de todas as coisas tocáveis.
Canta ainda.
Se não cantasse, poderia eu
estar a ouvi-la, tão nitidamente,
neste momento ?
Lídia Borges
(imagem: pesquisa s/ ind. autoria)
