sexta-feira, 11 de junho de 2021

Versos


Há versos ditos eruditos

vazios como um côco oco.

Porém, quando levados ao fogo

na frágua certa

saem de lá cheios que nem ovos.

 

De quê?

Ninguém sabe bem,

mas também ninguém duvida

do seu valiosíssimo conteúdo

que os distingue de todos os outros

escritos, enfim,

no idioma do falar “vulgar”

que todos entendem.

 

A mão que escreve o poema

já não é a que acarinhou, criou

a que arou, semeou, regou…

mas a que folheou mais páginas

em alheamento do agora,

a que permitiu que se tornasse pó

o parlar materno, a água mais pura

que, de boca em boca, canta ainda,

baixinho,

na raiz de todas as coisas tocáveis.

 

Canta ainda.

Se não cantasse, poderia eu

estar a ouvi-la, tão nitidamente,

neste momento ?


Lídia Borges

(imagem: pesquisa s/ ind. autoria)