sábado, 18 de setembro de 2021

Maria Judite de Carvalho

 


      O meu humilde contributo para a Antologia Água Silêncio Sede, obra comemorativa do centenário de Maria Judite de Carvalho (nascida a 18 de Setembro de 1921), recentemente lançada na Feira do Livro de Lisboa.  

                                                                                                   

 




 Um cheiro a mar verde-pálido,

de algas soltas, sem raízes[...]

Maria Judite de Carvalho. 

 



Cais

E um pedaço de inquietude,

os olhos acorrentados ao real,

outra vez.

 

A rua, uma forma inverosímil

de fazer florir o vento

na frágil haste de um verbo de sol.

 

Um pedaço de inquietude,

um presságio de papoilas,

um rumor roxo de urzes,

algumas algas sem raízes,

 

um cheiro a mar verde-pálido

a insinuar, na ampla absorção

dos pulmões,

a fugacidade do que é feito

para ser instante, apenas,

 

não itinerário. Encalhados

são os barcos, os impulsos

os homens, as marés

e os monólogos sem fim

com que se estilhaça

um pensamento de água,

para lá do olhar.

 

 Lídia Borges