Perguntei, ontem, ao Valter Hugo Mãe,
publicamente, que processos mentais o acometiam para que, nos seus livros,
fosse possível ver o mundo a partir de outras latitudes, com outros olhos que não os
dele, os nossos, ou seja, os do homem ocidental que tem, sobre o que é distinto, uma visão
ufanista, centralista, de “divina” supremacia
em relação a outras culturas, outras inteligências
e modos de estar no mundo.
Ficou calado, por uns momentos e depois falou
da revolta interior que sente ao ser confrontado com a desumanidade dos poderes
instalados, falou de bondade, falou da injustiça, da exploração do outro, da subjugação do deus dinheiro, da
prepotência, da desigualdade, como terríveis agressões psicológicas, sociológicas, éticas, morais,
biológicas, até. – “Já tenho de tomar uma coisa destas…” - Deitou num copo de
água um Alka-Seltzer (ou coisa que o valha) e enquanto este efervescia: “tudo isto me enerva,
enerva-me, pronto, deixa-me revoltado, furioso. Tinha amigos no Brasil que vim a descobrir
racistas, como se naquele país não fossem todos mestiços, como se não fôssemos
todos fruto de uma qualquer miscigenação. Já não sou amigo deles. Quero que se
f… ! Escrever é a minha maneira de sobreviver, de não me calar diante dos que
me querem calado”.
Fiquei a pensar em Saramago: Vivo em desassossego, escrevo para
desassossegar.
Achei-os parecidos.
Lídia Borges
(foto: pesquisa Google s/ind. autoria)
