segunda-feira, 15 de novembro de 2021

“Puxar os cordelinhos”



A expressão surgiu do nada

No fio do pensamento desatada:

“Puxar os cordelinhos”.

Dito assim em primeira intenção

Devia ter melhor fama

Tão leveirinho é o som.

 

Parece coisa de criança

Um cordel, guita ou cordão

Que se enrola no pião

E é ver como ele dança

E de rodar não se cansa

Na palma de uma mão.

 

Minha avó guardava

Quantos cordelinhos apanhava

Vinham a atar os cartuchos

Do grão do açúcar da cevada.

Tricotava pegas de cozinha

Ali ninguém se queimava.

 

Mas “puxar os cordelinhos”

Neste tempo dá mau cheiro

Gesto feio, sorrateiro…

Conquanto tantos os que puxam

Como os que deixam puxar

Não sei de trovas ou guitarras

Sem as cordas repuxadas.

 

As pegas de minha avó,

Um pião a dançar só

São fios da minha memória

Que sempre haverei de puxar.

Já para os cordelinhos

Rebanhos em pasto vasto

Chamem outros, maneirinhos,

Que desses em asco me afasto.

 

Lídia Borges