I
Perdoa o nosso fracasso, Menino.
Perdoa não termos mãos
de fazer florescer o Sol
nos teus olhos inocentes
nos teus passos torpes de
menino.
Devemos-te a Poesia
que não cabe num poema, em mil poemas.
Devemos-te, há tempo de mais,
a alegria de uma bola
colorida
de um passeio no parque ao
fim da tarde
de uma nuvem branca de
algodão doce
de uma bicicleta para
pedalares até à Lua ou Marte
ou até ao fundo da rua, ali tão perto.
Devemos-te o amparo de um
lar de verdade
O aconchego de uma cama
limpa.
Devemos-te o colo, o
beijo, o abraço apertado.
Perdoa o nosso fracasso,
Menino
o nosso intolerável
fracasso de hoje
de ontem, de todos os dias
em que nutrimos a guerra e
espalhamos a fome.
Perdoa não sabermos ainda nada
sobre o Amor.
E hoje, quando o dia for terminado,
igual a tantos outros dias,
gélido
e o abandono tomar nos braços
teu corpinho dorido,
doente de tantas fugas
de tantas recusas, de
tantos ódios
lembra-te que só tu, por
seres Menino
possuis a fórmula secreta
do perdão.
Se no futuro te pedirem
soluções, explicações
lembra-te daquele Menino
de ti
que, só ele, por ser
menino, conhece
o caminho do perdão para o
imperdoável.
E pede-lhe ajuda e
compaixão.
Lídia Borges
(imagem: em execução, óleo sobre tela, de minha autoria)