terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Menino


I

Perdoa o nosso fracasso, Menino.

Perdoa não termos mãos

de fazer florescer o Sol

nos teus olhos inocentes

nos teus passos torpes de menino.

 

Devemos-te a Poesia

que não cabe num poema, em mil poemas.

Devemos-te, há tempo de mais,

a alegria de uma bola colorida

de um passeio no parque ao fim da tarde

de uma nuvem branca de algodão doce

de uma bicicleta para pedalares até à Lua ou Marte

ou até ao fundo da rua, ali tão perto.

 

Devemos-te o amparo de um lar de verdade

O aconchego de uma cama limpa.

Devemos-te o colo, o beijo, o abraço apertado.

 

Perdoa o nosso fracasso, Menino

o nosso intolerável fracasso de hoje

de ontem, de todos os dias

em que nutrimos a guerra e espalhamos a fome.

 

Perdoa não sabermos ainda nada sobre o Amor.

E hoje, quando o dia for terminado,

igual a tantos outros dias, gélido

e o abandono tomar nos braços

teu corpinho dorido, doente de tantas fugas

de tantas recusas, de tantos ódios

lembra-te que só tu, por seres Menino

possuis a fórmula secreta do perdão.

 

 II

Se no futuro te pedirem soluções, explicações

lembra-te daquele Menino de ti

que, só ele, por ser menino, conhece

o caminho do perdão para o imperdoável.

E pede-lhe ajuda e compaixão.

 

 

Lídia Borges

(imagem: em execução, óleo sobre tela, de minha autoria)