sábado, 11 de dezembro de 2021

Plátanos


I

À Poesia nada dizem as razões do Vento.

Ainda que a queiram, pensante, acutilante, mordaz,

horizontal ou oblíqua, metediça, seguidista, 

aduladora, concisa... Parvoíce!

 

A poesia é um peixe. Não escuta sermões.

É um peixe arremessado 

para fora das águas correntes.

Os olhos abertos de espanto até à prata, 

em sofrimento.  

 

O modo como gera a água da salvação

em nada se parece à plúmbea erudição dos rios.

É tudo exasperação e incoerência, 

impressão, rotura, epílogo, imagens: 

o trigo ainda é a grande verdade do mundo.

que arrumação darás à palavra liberta?

De que alto protesto caíste, assim, de bruços na solidão? 

Pensar, pense quem lê.

 

II

Se estou triste? Não.

Estou apenas perante palavras 

sem destempero nenhum.

A Poesia já lhes voltou as costas.

Vai-se, rodeando de perto os plátanos.


De súbito, faz-se importante 

o abandono das folhas.


Lídia Borges