sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Da companhia

 

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

 

Álvaro de Campos

LISBON REVISITED (1923)

 

Até há pouco era bom ser sozinho.

Mesmo não sendo sozinho

saber como fazer para ser sozinho:

um recanto qualquer onde a luz não magoasse,

uma música miúda para encostar a cabeça,

um bloco de notas, um lápis…

 

Quando escrevo, esqueço-me

mesmo que pela lembrança, 

seja o esquecimento.

Não há como chegar inteiro ao presente

Sem calcorrear o passado.

 

O pior de tudo agora é

saber como ir ao Futuro.

Mas… havemos de ir ao futuro,

assim nos garante Filipa Leal, num poema,

e eu acredito. Eu acredito.

 

Todavia acontece que nesta primavera

sem marços, sem nardos

as palavras massacram-me, molestam-me

e as leituras ardem-me nos olhos

como lagrimas artificiais às quais

faço sérias alergia.

 

E de repente,

gostava que me pegassem no braço,

de pegar noutro braço

e outros braços se dessem

e, por um dia que fosse,

sermos muitos os “da companhia”.

 

O que eu mais queria,

nesta primavera sem marços nem nardos,

era abraçar as pessoas todas da minha rua.


[Mas onde estão as pessoas todas

da minha rua que as não oiço,

que as não sinto?]

 

Lídia Borges