terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Sonoridade

I 
 

I

Coisas sem peso, quase penas

que ando a querer dizer 

na página, na tela...

 

A tinta pouquíssima

deve levar água bem acima 

do quanto baste

para que as cores soletrem

a transparência perseguida.

 

Coisas brevíssimas, essas,

que ando a querer dizer

na página, na tela...

 

 

II

Coisas inconstantes, fugidiças

Esquissos que se movem

no desenho mínimo de uma asa.

Trespassam o peito, de súbito,

brisas ou véus

a desvanecerem-se antes 

que a voz as denuncie.

 

Coisas  translúcidas, 

ar vidro água.

Não cortantes, porém,

como o ar o vidro a água.

Coisas que nos assombram

vindas de um longe, tão longe.

Intangíveis.

 

Como dar uma forma justa

a insubstancialidades  tais

sem que primeiro conheça

o som que fazem

quando tu as pronuncias?


Lídia Borges


(imagem: Vanessa Chrystie)