I
Coisas sem peso, quase penas
que ando a querer dizer
na página, na tela...
A tinta pouquíssima
deve levar água bem acima
do quanto baste
para que as cores soletrem
a transparência perseguida.
Coisas brevíssimas, essas,
que ando a querer dizer
na página, na tela...
II
Coisas inconstantes, fugidiças
Esquissos que se movem
no desenho mínimo de uma asa.
Trespassam o peito, de súbito,
brisas ou véus
a desvanecerem-se antes
que a voz as denuncie.
Coisas translúcidas,
ar vidro água.
Não cortantes, porém,
como o ar o vidro a água.
Coisas que nos assombram
vindas de um longe, tão longe.
Intangíveis.
Como dar uma forma justa
a insubstancialidades tais
sem que primeiro conheça
o som que fazem
quando tu as pronuncias?
Lídia Borges
(imagem: Vanessa Chrystie)