domingo, 23 de janeiro de 2022

Pelas arestas dos dias

 


Escrever nesta mesa, outra,

banhada de sol,

à parte do lugar costumeiro,

dá ao poema um traçado

mais alegre e sereno?

 

A Natureza canta

hinos de renovação

do lado de fora do vidro

 

Os jarros anunciam

seu branco imaculado

por todos os cantos

 

Os cíclames adensam-se

em volume e cor e tingem 

de ternura rosa as floreiras

 

Os catos alegram-se, vivíssimos

e o negro dos melros negros

esbate-se claramente,

 

quando em euforia se beijam

com desfaçatez

no verde novo do limoeiro.

 

Bafejados pelo oiro dos cabelos

que um deus-criança

deixa cair pelas arestas dos dias,

persistimos.

 

 

Lídia Borges