domingo, 27 de fevereiro de 2022

Cada um na sua vez


 I

Os poetas que amo

juntam aos anos sonhos e desilusões, 

estrelas quebradas, iluminações,

audácias, tédios, euforias, ofícios.

Usam os sapatos cambados de mil andanças

e nos bolsos guardam berlindes, 

caricas, cromos, desperdícios.

À mistura, há palavras soltas, versos rasurados

quadras, tercetos, sextilhas, poemas inacabados.

São adultos e são crianças, cada um na sua vez.

Só assim podem saber

o já visto do que é novo

e do que é velho, o esquecido,

o visto p'la segunda vez. 


II

A Poesia pode até entardecer

tornar-se lago, lua, estrela em plena luz do dia

mas nunca afastar-se dos olhares da infância, 

em demasia.


Lídia Borges


(imagem:Mikahil Batrak)