sábado, 26 de fevereiro de 2022

Será que ensurdecemos?

Foto: Unicef Ucrânia

Nos ouvidos, inflamados estrondos,

dilatados gânglios de abrasivas otites.

Será que ensurdecemos?

De súbito, tudo se fez tão silente!

Diz-me: os pássaros

saltitam ainda nos ramos da magnólia, lá fora?

E as pétalas? Continuam róseas como ontem

ou entristeceram e cobrem já o solo escuro?

Diz-me: porque não se ouve a música

nas cordas do vento?

Onde, os latidos habituais dos cães?

Pálidos rostos. A água salgada a rasar as vozes

e a resistência dos braços estreitando crianças

contra o peito.

Agonizante a hora da separação.

Como saberão regressar

do terror, do inferno, do absurdo

os que puderem regressar?

"E as crianças senhor?"

Quem as devolve ao sono da cama quente

ao brinquedo preferido, à segurança

de um sorriso tranquilo de mãe?

Quem lhes limpará dos olhos inocentes

as sangrentas marcas da Besta.


Lídia Borges