Um dia, com aquele sorriso pleno de benevolência que a caracterizava, comentou: está muito bonito, o teu desenho. Debruçou-se sobre a folha de "cavalinho". Diz-me: - porque desaparecem as árvores quando chegam ao céu? Fiquei estupefacta. Podiam lá caber inteiras, as minhas árvores, numa folha tão pequena.
- Elas não conseguem chegar às nuvens. Não podem tapá-las - disse eu, meio confusa. O sorriso dela ficou maior e os olhos sorriam também. Nada mais acrescentou ao sorriso. Mais tarde, percebi que ela sabia que eu ficaria a matutar naquelas árvores de copas cortadas a meio, encostadas às nuvens, até descobrir que a realidade e a sua representação icónica eram coisas muito distintas.
Eu teria uns nove anos e ela era a minha professora "mais-que-tudo". E não só para mim. Para o resto da turma, também. Conseguia encontrar e trazer à superfície de cada um o que, de melhor, cada um tinha em si. As suas aulas eram música para nós.
Há alguns anos veio "ver-me" à Feira do Livro de Braga. Apresentava eu o Baile de Cítaras. Quando os meus olhos a encontraram entre os presentes, após muitos anos de distância, senti-me irremediavelmente comovida. Ela, jovem e linda como sempre, falou-me como se eu tivesse ainda nove anos: escreves poesia!? Ah, eu sabia, eu sabia... E de livro aberto na mão: deixas-me ler este poema, em voz alta? É tão bonito! Entreguei-lhe o meu mais grato e terno abraço.
Artista plástica, Professora e não só, pessoa de rara beleza interior, Lourdes Magalhães deixou-nos hoje. Luminosa de mais para poder desaparecer ao chegar ao céu, como as árvores saídas de uns dedos de criança. Não haverá nuvens para a tapar, tanto mais que todas as nuvens, hoje, vieram morar no meu coração.
Lídia Borges