Não sabes como se rompeu a alma,
puído pano que fora linho.
Tu que ouvindo falar do sem lugar
que ela habitava,
sorrias complacente.
Do lugar da tua, todos os dias
sopravam brisas de primavera.
Não sabes como se estraçalhou.
Foi acontecendo, devagarinho:
uma criança abandonada
uma mulher destratada
um velho pedindo esmola
um cachorro morto numa berma
um pinheiro manso ardido
um prato antigo partido,
um corte de vidro
abrindo no coração.
Os parentes idos
a roseira rara que secou
os amigos que partiram
os que nunca chegaram
os irmãos desavindos
os amores desamados
e os amados desamores,
armados.
Invadida pela hera
uma casa em ruínas.
II
A hera vai cobrindo a alma, devagarinho,
como cobriu o velho tronco desta macieira
diante dos olhos.
Vagos sinais de aurora afloram
aos ramos mais altos da árvore.
Lídia Borges