quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Invadida pela hera uma casa em ruínas

Alla Tsank (Rússia)
 

Não sabes como se rompeu a alma, 

puído pano que fora linho.

Tu  que ouvindo falar do sem lugar 

que ela habitava, 

sorrias complacente.

Do lugar da tua, todos os dias 

sopravam brisas de primavera.

 

Não sabes como se estraçalhou.

Foi acontecendo, devagarinho:

uma criança abandonada

uma mulher destratada

um velho pedindo esmola

um cachorro morto numa berma

um pinheiro manso ardido

um prato antigo partido,

um corte de vidro

abrindo no coração.

 

Os parentes idos

a roseira rara que secou

os amigos que partiram

os que nunca chegaram

os irmãos desavindos

os amores desamados

e os amados desamores,

armados.

Invadida pela hera

uma casa em ruínas.

 

II 

A hera vai cobrindo a alma, devagarinho,

como cobriu o velho tronco desta macieira

diante dos olhos.

Vagos sinais de aurora afloram 

aos ramos mais altos da árvore.


 

 

Lídia Borges