domingo, 6 de fevereiro de 2022

Ler como quem ouve

 

Pôr a leitura em dia fez-me, hoje, abrir a Revista Seara Nova que havia chegado, há alguns dias, pelo correio. Embora a capa deste n.º 1757 nos presenteie com um desenho a caneta e aguarela (cf. ficha técnica) de Maria Keil e o mesmo me tenha, desde logo, prendido a atenção, não foi logo que a abri. Leituras há que são para se fazer devagar e só hoje desfruto desse precioso vagar.

Foi gratificante encontrar, entre outros assuntos interessantes, na secção dedicada à Cultura, um  excelente artigo, assinado por Helena Alexandra Mantas, intitulado – “ERA TRABALHO E ERA BONITO - a propósito de Maria Keil e as Artes Gráficas” que resume a vida e a obra da artista, com passagens a reter, de que esta é exemplo: “Há pessoas que nascem mais do que uma vez. Eu por exemplo. Numa das vezes em que nasci encontrei o José Gomes Ferreira.” - excerto de um texto de Maria Keil, em homenagem a José Gomes Ferreira.

 

Voltada a página e… quem encontro eu? Sara Reis da Silva, (Centro de Investigação em Estudos da Criança da UM), minha co-orientadora, juntamente com Isabel Cristina Mateus (ILCH), Universidade do Minho, aquando da dissertação de mestrado que escrevi versando o tema - "Figurações da viagem na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen destinada às crianças e jovens.

  Que bom ler como quem ouve uma voz amiga, a traduzir a fala d'As bonecas na escrita para a infância de Matilde Rosa Araújo. Assim: “Fui uma vez a uma escola, há uns anos… e vejo o olhar de uma criança (vamos aprendendo a ler olhares) tão triste, tão triste, e pensei: “Esta criança é muito infeliz”.  Ela chega-se ao pé de mim e diz-me: “A senhora espera um bocadinho?, “Sim , espero” – O que é que ela quereria? Foi a casa que devia ser perto, e traz-me uma boneca de trapos suja. Era a única boneca que ela tinha (tenho-a ainda no meu escritório) e diz-me: “ Fique com a minha boneca.”, Oh, meu amor, eu não fico com a tua boneca, então? Tu tens mais bonecas?”, Não, é a minha boneca. Mas fique com a minha boneca, eu quero que fique em sua casa.” Senti ali uma tragédia, qualquer coisa muito triste e fiquei com a boneca na mão, nos braços. Era uma criança abandonada e rejeitada, porque ela não a queria em casa.” *

 

* excerto de entrevista a Matilde Rosa Araújo disponível em

http://www.casadaleitura.org/portalbeta/bo/documentos/vo_matilde_b.pdf.

 

Hora, agora,  de pôr certas impressões em dia…


Lídia Borges