Pôr a
leitura em dia fez-me, hoje, abrir a Revista Seara Nova que havia
chegado, há alguns dias, pelo correio. Embora a capa deste n.º 1757 nos presenteie
com um desenho a caneta e aguarela (cf. ficha técnica) de Maria Keil e o mesmo
me tenha, desde logo, prendido a atenção, não foi logo que a abri. Leituras
há que são para se fazer devagar e só hoje desfruto desse precioso vagar.
Foi gratificante encontrar, entre outros assuntos interessantes, na secção dedicada à Cultura, um excelente artigo, assinado por Helena Alexandra Mantas, intitulado – “ERA TRABALHO E ERA BONITO - a propósito de Maria Keil e as Artes Gráficas” que resume a vida e a obra da artista, com passagens a reter, de que esta é exemplo: “Há pessoas que nascem mais do que uma vez. Eu por exemplo. Numa das vezes em que nasci encontrei o José Gomes Ferreira.” - excerto de um texto de Maria Keil, em homenagem a José Gomes Ferreira.
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e… quem encontro eu? Sara Reis da Silva, (Centro de Investigação em Estudos da
Criança da UM), minha co-orientadora, juntamente com Isabel Cristina Mateus (ILCH), Universidade
do Minho, aquando da dissertação de mestrado que escrevi versando o tema
- "Figurações da viagem na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen destinada às
crianças e jovens.
Que bom
ler como quem ouve uma voz amiga, a traduzir a fala d'As bonecas na
escrita para a infância de Matilde Rosa Araújo. Assim: “Fui uma vez a uma
escola, há uns anos… e vejo o olhar de uma criança (vamos aprendendo a ler
olhares) tão triste, tão triste, e pensei: “Esta criança é muito infeliz”. Ela chega-se ao pé de mim e diz-me: “A senhora
espera um bocadinho?, “Sim , espero” – O que é que ela quereria? Foi a casa que
devia ser perto, e traz-me uma boneca de trapos suja. Era a única boneca que
ela tinha (tenho-a ainda no meu escritório) e diz-me: “ Fique com a minha boneca.”,
Oh, meu amor, eu não fico com a tua boneca, então? Tu tens mais bonecas?”, Não,
é a minha boneca. Mas fique com a minha boneca, eu quero que fique em sua casa.”
Senti ali uma tragédia, qualquer coisa muito triste e fiquei com a boneca na
mão, nos braços. Era uma criança abandonada e rejeitada, porque ela não a
queria em casa.” *
* excerto de entrevista a Matilde Rosa Araújo disponível em
http://www.casadaleitura.org/portalbeta/bo/documentos/vo_matilde_b.pdf.
Hora, agora, de pôr certas impressões em dia…
Lídia Borges