sexta-feira, 11 de março de 2022

Tema



O tema é a guerra. Qualquer tema, em tempo de guerra, é a guerra. Ela tem um modo de ser, de estar, de fazer, que deita por terra toda e qualquer construção que se pretenda erguer na cercadura da sua gadanha.

Hoje, dia em que Sebastião Alba completaria 82 anos, se estivesse entre nós, em corpo, leio-lhe os versos. Aparecem-me estes, novos como se nunca os tivesse lido:


O limite diáfano


Movo-me nos bastidores da poesia,

e coro se de leve a escuto.

Mas o pão de cada dia

à noite está consumido,

e a alvorada seguinte

banha as suas escórias.

Palco só o da minha morte,

se no leito!,

com seu asseio sem derrame...

O lado para que durmo

é um limite diáfano:

aí os versos espigam.

Isso me basta. Acordo

antes que a seara amadureça

e na extensão pairem,

de Van Gogh, os corvos.

Sebastião Alba, “O limite diáfano”, inserido em Uma pedra ao lado da evidência (2000:pág. 91)