domingo, 11 de setembro de 2022

Folha caída

 


Há tempos

que andas a ameaçar morrer[-me].

Desde então,

dos caminhos que me eram caminho, ficou nada.

Foi-se até a marca das minhas pegadas.

Minhas mãos começaram a confundir

palavras e direções e meu coração,

um abismo onde deponho as pedras destes dias.

Hei de saber-lhe o fundo.


Tropeço nas  horas órfãs de ti.

As tuas ausências perturbam-me, 

caio e levanto-me, cada vez mais inapta, 

como se não possuísse a consciência 

da inevitabilidade da morte.

 

Desde que ameaças morrer[-me]

sou, ao rés do muro, a folha de outono,

imóvel e insubordinada,

que vento algum ousa levar p'ra dançar.


Lídia Borges


(à mãe)