Há tempos
que andas a ameaçar morrer[-me].
Desde então,
dos caminhos que me eram caminho, ficou nada.
Foi-se até a marca das minhas pegadas.
Minhas mãos começaram a confundir
palavras e direções e meu coração,
um abismo onde deponho as pedras destes dias.
Hei de saber-lhe o fundo.
Tropeço nas horas órfãs de ti.
As tuas ausências perturbam-me,
caio e levanto-me, cada vez mais inapta,
como se não possuísse a consciência
da inevitabilidade da morte.
Desde que ameaças morrer[-me]
sou, ao rés do muro, a folha de outono,
imóvel e insubordinada,
que vento algum ousa levar p'ra dançar.
Lídia Borges
(à mãe)
