Anne Packard
50.
Nesses dias
nunca chegavas pelos teus pés.
A luz que julgava tua
enredava-se-me nos dedos
e contorciam-se
os verbos adoecidos.
O rio era um deserto.
Deixava cair nas suas águas os olhos
via-os afundar-se. Morriam-me.
Nesses dias
nenhuma ave matinal
sabia a música do seu canto.
Porque era longínquo e deserto
o lugar de todas as gramáticas.
Albas as idades minhas.
indecisos os passos
de caminhar sozinha
pelos dias.
Tempos de me instruir
na solidão dos barcos.
Lídia Borges em "Que farei com este azul que me beija"
