domingo, 18 de setembro de 2022

Poema 50, em "Que farei com este azul que me beija"

Anne Packard

50.

 

Nesses dias

nunca chegavas pelos teus pés.

 

A luz que julgava tua

enredava-se-me nos dedos

e contorciam-se

os verbos adoecidos.

 

O rio era um deserto.

Deixava cair nas suas águas os olhos

via-os afundar-se. Morriam-me.

 

Nesses dias

nenhuma ave matinal

sabia a música do seu canto.

Porque era longínquo e deserto

o lugar de todas as gramáticas.

 

Albas as idades minhas.

indecisos os passos

de caminhar sozinha

pelos dias.

 

Tempos de me instruir

na solidão dos barcos. 



Lídia Borges em "Que farei com este azul que me beija"