Se quisesse agora tomar posse do poema
poderia fazê-lo sem mácula e sem pudor.
Juntaria silenciosamente
todo o pó que se solta das coisas da casa
e deixá-lo-ia [em nuvem] na soleira da porta,
à mercê de ventos sedentos.
Todo o pó que são as coisas ao serem tocadas,
depois da tua morte.
Ouvir a melodia que ficou
em cada lugar desocupado,
discernir em todos os timbres
em todas as línguas do mundo
o som da eternidade ao anunciar-se
à entrada da minha alma.
Se alguém pretendesse esfaquear este poema
que parte de mim sangraria?
Lídia Borges (22/09/2022)
(pintura: Harold Knight
(reino unido, 1874-1961)
