quinta-feira, 22 de setembro de 2022


Se quisesse agora tomar posse do poema

poderia fazê-lo sem mácula e sem pudor.

Juntaria silenciosamente

todo o pó que se solta das coisas da casa

e deixá-lo-ia [em nuvem] na soleira da porta,

à mercê de ventos sedentos.

Todo o pó que são as coisas ao serem tocadas, 

depois da tua morte. 


Ouvir  a melodia que ficou

em cada lugar desocupado,

discernir em todos os timbres

em todas as línguas do mundo

o som da eternidade ao anunciar-se 

à entrada da minha alma.


Se alguém pretendesse esfaquear este poema 

que parte de mim sangraria?


Lídia Borges (22/09/2022)

(pintura: Harold Knight (reino unido, 1874-1961)