Quando Lídia Borges não tinha ainda aquilo
a que se pode chamar os estorvos da vontade própria e a mania da intromissão
nas vontades alheias, quando Lídia Borges era, sem mais rodeios, o nome de
minha avó, eu escrevia assim:
Sei porque escrevo; […]
Amanheceu. O mundo é
verdade
Sim, sim, é palpável.
Eugène Ionesco
In A Busca Intermitente
De manhãzinha
o pátio entre as flores
um pedacinho de céu
o cheiro do pão torrado
leite com café bem quente
e um poema
para controlar a tensão arterial.
Agora sim,
os pássaros já podem começar a cantar.
Lídia Borges
***
Não sei se o ato de escrever tem ou não
intrínseca a insuficiência do viver, conforme tenho ouvido proclamar.
Nunca senti necessidade de refletir sobre
essa espécie de compensação que os escreventes buscam, quando transformam
tudo em imagens e depois escolhem, quantas vezes, sob estados de feroz inquietação, as palavras que darão a ver essas figurações do mundo, dos mundos, a seus olhos, mesmo sabendo que todas as imagens são
efémeras e desaparecerão, como tudo que é criação desaparece.
O que me traz a este assunto são os meus
monólogos cada vez mais persistentes e incómodos, a propósito deste “vício”
que, no encalce da vida suficiente, deixa a vida, propriamente dita, em estado
de constrangedora letargia.
Bem diz um amigo que encontrei casualmente
há dias, a comprar livros, como eu. (- Já viste este título? Batido, batido de
mais! Não percebo, nem parece dele… Dele, do autor do livro que eu trazia na
mão, o mesmo que o levara ali, apesar do título.
-Por onde tem andado? ("Tem"… com o respeito devido às barbas brancas exibidas.) O velho mareante fica agora em terra? – pergunto. Um sorriso aberto e… - Retirei-me. É importante saber quando colocar o derradeiro ponto final. Fazer como o Cristiano Ronaldo que já mal vê a bola, não? Estou cego para as delineações da caneta. - Independentemente do ponto final, poeta sem cura nem conserto! – penso.
Fico a cogitar sobre estas
“coisas” insondáveis, a relação nem sempre pacifica de quem escreve com o
que escreve, a revelação, a autoridade inviolável da palavra sobre a intenção que precede o texto. Uma questão que considero pertinente impõe-se no meio do vasto mar
de dúvidas que me assola - Será que têm uma vida “suficiente” os que não
escrevem? Não reúno argumentos que me levem a responder afirmativamente, muito
pelo contrário, mas suspeito que alguns estarão na posse de um mecanismo
qualquer, uma estratégia menos invasiva e dolorosa que a escrita, de driblar,
por um lado, a Morte e, por outro lado, a angústia de estar vivo.
Hei de saber como se faz. Ou não!
Lídia Borges
