quinta-feira, 27 de outubro de 2022

"A Busca Intermitente"

 


Quando Lídia Borges não tinha ainda aquilo a que se pode chamar os estorvos da vontade própria e a mania da intromissão nas vontades alheias, quando Lídia Borges era, sem mais rodeios, o nome de minha avó, eu escrevia assim:

 

Sei porque escrevo; […]

Amanheceu. O mundo é verdade

Sim, sim, é palpável.

 Eugène Ionesco

In A Busca Intermitente

 

De manhãzinha

o pátio entre as flores

um pedacinho de céu

o cheiro do pão torrado

leite com café bem quente

e um poema

para controlar a tensão arterial.

 Agora sim,

os pássaros já podem começar a cantar.

 

Lídia Borges

 

***

Não sei se o ato de escrever tem ou não intrínseca a insuficiência do viver, conforme tenho ouvido proclamar.

Nunca senti necessidade de refletir sobre essa espécie de compensação que os escreventes buscam, quando transformam tudo em imagens e depois escolhem, quantas vezes, sob estados de feroz inquietação, as palavras que darão a ver essas figurações do mundo, dos mundos, a seus olhos, mesmo sabendo que todas as imagens são efémeras e desaparecerão, como tudo que é criação desaparece.  

O que me traz a este assunto são os meus monólogos cada vez mais persistentes e incómodos, a propósito deste “vício” que, no encalce da vida suficiente, deixa a vida, propriamente dita, em estado de constrangedora letargia.  

Bem diz um amigo que encontrei casualmente há dias, a comprar livros, como eu. (- Já viste este título? Batido, batido de mais! Não percebo, nem parece dele… Dele, do autor do livro que eu trazia na mão, o mesmo que o levara ali, apesar do título. 

-Por onde tem andado? ("Tem"… com o respeito devido às barbas brancas exibidas.) O velho mareante fica agora em terra? – pergunto. Um sorriso aberto e… - Retirei-me. É importante saber quando colocar o derradeiro ponto final.  Fazer como o Cristiano Ronaldo que já mal vê a bola, não? Estou cego para as delineações da caneta. - Independentemente do ponto final, poeta sem cura nem conserto! – penso.

 Fico a cogitar sobre estas “coisas” insondáveis, a relação nem sempre pacifica de quem escreve com o que escreve, a revelação, a autoridade inviolável da palavra sobre a intenção que precede o texto. Uma questão que considero pertinente impõe-se no meio do vasto mar de dúvidas que me assola - Será que têm uma vida “suficiente” os que não escrevem? Não reúno argumentos que me levem a responder afirmativamente, muito pelo contrário, mas suspeito que alguns estarão na posse de um mecanismo qualquer, uma estratégia menos invasiva e dolorosa que a escrita, de driblar, por um lado, a Morte e, por outro lado, a angústia de estar vivo.

Hei de saber como se faz. Ou não!

 

Lídia Borges