terça-feira, 25 de outubro de 2022

Insensatez


Escusas de me observar tão afincadamente

como se fosse eu o ponto luminoso

no alto da tua noite.

É no que dá ver no verso o verso somente.

Eu sei que a poesia te é equívoco,

que vês no que digo o que não digo,

e no que não digo o que desejas ouvir. 

Acontece que, nem sempre ao cair de um mau dia,

há latente um prelúdio de sol.

Do verso experimenta o inverso.

Assim:

Sou o negrume em volta do ponto que fixas,

a displicente surpresa antes do final feliz

que  à revelia dos dias escreves.

Sou o que mora nos bastidores da aurora,

a léguas do lugarejo ensolarado que é a tua insensatez,

esse ponto que, no alto na minha noite, brilha.


Lídia Borges