Escusas de me observar tão afincadamente
como se fosse eu o ponto luminoso
no alto da tua noite.
É no que dá ver no verso o verso somente.
Eu sei que a poesia te é equívoco,
que vês no que digo o que não digo,
e no que não digo o que desejas ouvir.
Acontece que, nem sempre ao cair de um mau dia,
há latente um prelúdio de sol.
Do verso experimenta o inverso.
Assim:
Sou o negrume em volta do ponto que fixas,
a displicente surpresa antes do final feliz
que à revelia dos dias escreves.
Sou o que mora nos bastidores da aurora,
a léguas do lugarejo ensolarado que é a tua insensatez,
esse ponto que, no alto na minha noite, brilha.
Lídia Borges
