Há livros que me acontecem, ainda, de uma
maneira inesperadamente viva, carnal, uterina, diria até. Enquanto os leio, sou
invadida por uma sensação que nada tem de distância, viagem, lonjura. Neles, tudo e
nada me surpreende. As formas, os sons, os cheiros, são-me
milimetricamente próximos, como se construídos da mesma matéria de que é
construída a minha casa. Pergunto-me, por vezes incrédula, que terão a ver as
florestas da Polónia de Tokarczuk, húmidas e gélidas, os troncos das árvores ocupados por seres míticos de mundos outros, com as minhas florestas
interiores, predominantemente solares, em quase tudo diferentes: outra
geografia, outra flora, outra fauna, outro clima, outra literatura, deslembrada, quiçá, da universalidade que a sustenta. À medida que avanço nas páginas
destas Histórias Bizarras, deparo-me com criaturas que
reconheço, que me são absolutamente familiares. Algumas delas, mantenho-as abrigada nos
troncos de histórias que escrevi para os alunos/crianças, narrativas saídas do
meu laboratório secreto, que nunca lograram pisar o caminho do prelo.
Talvez por as achar, eu própria, inverosímeis, aos olhos dos Atinados da Vida.
Estas crianças verdes que
julgo terem nascido a partir dos relatos históricos sobre as crianças verdes de
Woolpit, na Inglaterra do século XII, cuja origem só agora com Olga
Tokarczuk (digo eu) fica clarificada, por via da
imaginação prodigiosa e contagiosa da escritora, parecem-se muito com outras duas que
hibernam em páginas minhas. São crianças minúsculas e misteriosas, capazes de
apagar os mais terríveis pesadelos. Não tão verdes e lunares, é verdade, mas, como estas,
fugidas do espaço real, para não sujarem os olhos com tanto
lixo, indevidamente gerado.
[…]
Às vezes, quando trepam à árvore mais
alta, o nosso mundo assoma-se à distância, vêem o fumo das aldeias incendiadas
e sentem o cheiro dos corpos queimados. Nessas alturas, desaparecem rapidamente
sob as folhas, pois não querem sujar os olhos com tais vistas, nem estragar o
nariz com tais cheiros. […]. Julgam que somos irreais, que somos um sonho mau.
(Itálicos - Olga Tokarczuk,
2022, Histórias Bizarras.)
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