segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Olga Tokarczuk

 


Há livros que me acontecem, ainda, de uma maneira inesperadamente viva, carnal, uterina, diria até. Enquanto os leio, sou invadida por uma sensação que nada tem de distância, viagem, lonjura. Neles, tudo e nada me surpreende. As formas, os sons, os cheiros, são-me milimetricamente próximos, como se construídos da mesma matéria de que é construída a minha casa. Pergunto-me, por vezes incrédula, que terão a ver as florestas da Polónia de Tokarczuk, húmidas e gélidas, os troncos das árvores ocupados por seres míticos de mundos outros, com as minhas florestas interiores, predominantemente solares, em quase tudo diferentes: outra geografia, outra flora, outra fauna, outro clima, outra literatura, deslembrada, quiçá, da universalidade que a sustenta. À medida que avanço nas páginas destas Histórias Bizarras, deparo-me com criaturas que reconheço, que me são absolutamente  familiares. Algumas delas, mantenho-as abrigada nos troncos de histórias que escrevi para os alunos/crianças, narrativas saídas do meu laboratório secreto, que nunca lograram pisar o caminho do prelo. Talvez por as achar, eu própria, inverosímeis, aos olhos dos Atinados da Vida.

Estas crianças verdes que julgo terem nascido a partir dos relatos históricos sobre as crianças verdes de Woolpit, na Inglaterra do século XII, cuja origem só agora com Olga Tokarczuk (digo eu) fica clarificada, por via da imaginação prodigiosa e contagiosa da escritora, parecem-se muito com outras duas que hibernam em páginas minhas. São crianças minúsculas e misteriosas, capazes de apagar os mais terríveis pesadelos.  Não tão verdes e lunares, é verdade, mas, como estas, fugidas do espaço real, para não sujarem os olhos com tanto lixo, indevidamente gerado.

 

[…]

Às vezes, quando trepam à árvore mais alta, o nosso mundo assoma-se à distância, vêem o fumo das aldeias incendiadas e sentem o cheiro dos corpos queimados. Nessas alturas, desaparecem rapidamente sob as folhas, pois não querem sujar os olhos com tais vistas, nem estragar o nariz com tais cheiros. […]. Julgam que somos irreais, que somos um sonho mau.

 

(Itálicos - Olga Tokarczuk, 2022, Histórias Bizarras.)

Imagem daqui