Reparo que o tempo descascou
a pintura branca da
chaminé, na casa de frente.
Deixou desenhado a cinzento
o esboço
bem definido de uma figura
humana.
É um homem. Usa um
sobretudo largo,
a gola erguida e um chapéu
a cobrir-lhe a cabeça.
Nada distingue a cabeça do
chapéu,
o corpo do sobretudo,
porém
na monocromia da forma
é perfeitamente visível o homem, curvado,
cabeça baixa, contra o vento,
uma mão segurando o chapéu.
Peço-te que olhes, que confirmes esta minha visão.
Um breve instante entre o silêncio e a palavra:
«parece que o vizinho tem
de mandar
pintar a chaminé».
Enquanto o vizinho não mandar pintar a chaminé
ou o pintor primitivo não retocar a forma
será sempre um sem-abrigo que ali vejo,
agora, fustigado pela chuva torrencial que cai.
O telhado sólido estende-se a seus
pés,
numa imprudente e irónica alusão ao abrigo.
Lídia Borges
