sábado, 22 de outubro de 2022

Olhares

(imagem: Notícias ao Minuto)


Reparo que o tempo descascou

a pintura branca da chaminé, na casa de frente.

Deixou desenhado a cinzento o esboço

bem definido de uma figura humana.

É um homem. Usa um sobretudo largo,

a gola erguida e um chapéu a cobrir-lhe a cabeça.

Nada distingue a cabeça do chapéu,

o corpo do sobretudo, porém

na monocromia da forma

é perfeitamente visível o homem, curvado, 

cabeça baixa, contra o vento, 

uma mão segurando o chapéu.

Peço-te que olhes, que confirmes esta minha visão.

Um breve instante entre o silêncio e a palavra:

«parece que o vizinho tem de mandar

pintar a chaminé».

Enquanto o vizinho não mandar  pintar a chaminé

ou o pintor primitivo não retocar a forma

será sempre um sem-abrigo que ali vejo,   

agora, fustigado pela chuva torrencial que cai.

O telhado sólido estende-se a seus pés,

numa imprudente e irónica alusão ao abrigo.



Lídia Borges