quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Re(nascimento)

 

Ainda arrolada no ventre da mãe

ouviste, entre as vibrações amnióticas,

um rumor de que a mulher seria

presença imprescindível, permanente

longe do chão da existência, sempre.

 

Riste pela primeira vez

e era-te já estranho rir,

sem os dentes que hoje tens,

um riso sábio e inocente  

que se alimentava do sal

das lágrimas de tua mãe.

 

E porque eras já um ser pensante,

pensaste

que haveria de ser árduo o nascer. E o viver

de quem vem para estar e não para ser.

Tanto mito para combater,

tanta fala mestra interdita

tanto dito sem sentido mil vezes repetido

elocução fácil ou mancha na visão

tanto atalho rasteiro, rafeiro,

a querer-se atualidade, sacralidade, 

nascimento primeiro.


Lídia Borges

(Mahsa Amini, s/ ind, autoria)