
Ainda arrolada no ventre da mãe
ouviste, entre as vibrações
amnióticas,
um rumor de que a mulher seria
presença imprescindível, permanente
longe do chão da existência, sempre.
Riste pela primeira vez
e era-te já estranho rir,
sem os dentes que hoje tens,
um riso sábio e inocente
que se alimentava do sal
das lágrimas de tua mãe.
E porque eras já um ser pensante,
pensaste
que haveria de ser árduo o nascer. E o
viver
de quem vem para estar e não para ser.
Tanto mito para combater,
tanto dito sem sentido mil vezes repetido
elocução fácil ou mancha na visão
tanto atalho rasteiro, rafeiro,
a querer-se atualidade, sacralidade,
nascimento primeiro.
Lídia Borges
(Mahsa Amini, s/ ind, autoria)