quarta-feira, 16 de novembro de 2022

José Saramago (16 de novembro de 1922, Azinhaga - 18 de junho de 2010, Tías, Espanha)

 

De José Saramago, por mais que se fale, nunca estará tudo dito. Porque ele soube, como ninguém, dar às palavras o dom de abarcarem apenas o que, do homem e do mundo, é essência.

Do resto, não se ocupou ele. Há tantos a fazê-lo!

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Onde estás, Saramago? Ah, aqui, bem à vista nesta minha estante de oiro. Percorro com os dedos as lombadas - Saramago... Saramago... Saramago.... Vejo os títulos e vou rebuscando na memória os enredos, as personagens -  Levantados do Chão... nunca me recompus totalmente da sensação de dor e angústia ao ler, narrado através do olhar das formigas que atravessavam em carreiro o soalho do prédio onde Vidigal estava a ser torturado... o que elas veem, a lâmpada como se um sol, duas altas torres, Escarro e Escarrilhoos brutos infelizes que torturam... o sangue de Vidigal jorrando, respingando as paredes, escorrendo pelo chão. O homem que só pedia melhores condições de vida para si e para a família, morto, sem outras testemunhas que não as afadigadas e mudas  formigas.

***

Que é isto, um caderno fininho, aqui? – José Saramago / Discursos de Estocolmo (Março, 1999), Editorial Caminho.

Leio:

[…]

Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: «José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira.»

[…]

A mesma esquizofrénica humanidade que é capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte, neste tempo do que ao nosso semelhante.

Foi-nos proposta uma Declaração Universal de Direitos Humanos. E com isso julgamos ter tudo, sem repararmos que nenhuns direitos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem, o primeiro dos quais será exigir que esses direitos sejam não só reconhecidos, mas também respeitados e satisfeitos. Não é de esperar que os Governos façam nos próximos cinquenta anos o que não fizeram nestes (50) que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra e a iniciativa. Com a mesma veemência e a mesma força com que reivindicarmos os nossos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa começar a tornar-se um pouco melhor.

José Saramago, OBRIGADA!



foto daqui