quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Despertador




Um extenso azul de ninguém. Sem fim,
lugar de nadas, fonte, apenas, 
tanto!
A descrença natural no não vivido
a inverdade do racional[izado].


I


A luz ofusca, se excessiva.

Assim, o poema vem nas luzernas do amanhecer.

Vem escavando um solo gasoso, de nuvem em nuvem 

ladeando sombras,  pruídos, pólens,  poeiras.

 

Passos tímidos na inseguridade do piso,

entram no rio  entre presença e dormência.

A cada solavanco da voz, é tua a vida, é teu o sonho,

são teus os afluentes de miragens autênticas.

 

II

Na faina dos sentidos submersos,

limos, clarezas, anseios, afeições

procuram a forma mais justa ao desejo.

E, de súbito, o silvo do despertador a estilhaçar o vidro,

a espalhar à superfície  diálogos intercortados,

inacabados, sem lógica nem definição.

Falava comigo, falava contigo?

 

III

A qualquer momento 

a realidade há de vir entranhar-se 

no canto arrepiado dos pardais 

e todo o branco regressará 

ao ventre da  página escrita.


IV

Como se viável a vida sem o sonho.





Lídia Borges