I
A luz ofusca, se excessiva.
Assim, o poema vem nas luzernas do amanhecer.
Vem escavando um solo gasoso, de nuvem em nuvem
ladeando sombras, pruídos, pólens, poeiras.
Passos tímidos na
inseguridade do piso,
entram no rio entre presença e dormência.
A cada solavanco da voz, é tua a vida, é teu o sonho,
são teus os afluentes de miragens autênticas.
II
Na faina dos sentidos submersos,
limos, clarezas, anseios, afeições
procuram a forma mais justa ao desejo.
E, de súbito, o silvo do despertador a estilhaçar o vidro,
a espalhar à superfície diálogos intercortados,
inacabados, sem lógica nem definição.
Falava comigo, falava contigo?
III
A qualquer momento
a realidade há de vir entranhar-se
no canto arrepiado dos pardais
e todo o branco regressará
ao ventre da página escrita.
IV
Como se viável a vida sem o sonho.
Lídia Borges
