quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Todas as palavras



Todas as palavras de dentro e de fora de mim

permanecem na fria lonjura do teu rosto,

enquanto tua voz húmida desce aos musgos

como se, quanto de ti me ficasse, terra somente.

 

Criaste utopias, rasgaste redes e rédeas

desabitaste os poemas dos poetas tristes

fertilizaste os solos 

por onde passavam minhas raízes mais fundas.

 

Guardo agora um sol posto, em cada mão e sou só

invisível embarcação,

solidão de azuis infinitamente navegados.

 

No silêncio me amparo para indagar o norte:

a seda de uma camélia vem tomar-me o olhar,

acalento de nuvem subindo ao coração.

Assim me amparo, indagando o longe,

o lento retorno da fome e da sede

para a lavoura dos dias.

 

 

Lídia Borges

(imagem: pesquisa s/ ind. autoria)