sábado, 5 de novembro de 2022

"TÚNICA ÍNTIMA"

 


Por razões que não vêm agora ao caso, só ontem me chegou às mãos o “Túnica Íntima”, livro de poemas da autoria de Silvia Mota Lopes.

Depois de uma leitura atenta, deixo as impressões primeiras que registei:

A meio caminho, entre a cabeça e o coração, há um lugar de liberdade privilegiada onde foram agrupados os poemas em pequeno formato (2 ou 3 versos, na sua maioria). Nesse espaço de sombra onde as «palavras pernoitam em avolumadas hastes sonâmbulas» (pag. 14) é dada ao leitor autonomia bastante para fazer significar as palavras, segundo o seu modo próprio de ler/ver. A interferência da voz textual é mínima já que esta dá primazia à sugestão em detrimento da afirmação.

Depois há o coração (uma pintura da autora) onde a fisiologia, veias e artérias, a mágoa, a fantasia, a inquietação, se entrelaçam para dar existência aos afetos que são, no meu entender, a “alma” deste conjunto de poemas. Temos a comprová-lo, não só a dedicatória: «Ao meu pai» como também diversas referências à família - à mãe à avó, etc...


No extremo oposto, fica o pensamento representado, nas imagens, pela cabeça – rostos, olhos, expressões, cabelos em simbiose com elementos da Natureza dialogam, à primeira vista, de forma harmoniosa. Destes diálogos despontam fragmentos de memórias, reminiscência quase sempre a partir dos verbos “lembrar/recordar”, cf. se pode ver nestas e noutras passagens, ao longo do livro:

“Lembro-me do frio miudinho / da sombra e do silêncio […] / a minha mãe aquecia-me os pés[…]”

“Lembro-me do colchão, do berço, do cubículo/e ali dormia/para não sentir o seu tamanho.”

“Lembro-me das árvores carregadas de pássaros /que rebentavam em cânticos.”

“Lembro-me da sala em festa, da fotografia da família num álbum/que não abro há algum tempo.”

“Recordo as árvores e vou inventando outras…”

[…]



“Túnica Íntima” – um livro de Sílvia Mota Lopes, onde a linguagem parece revolver-se constantemente na tentativa de abarcar a convulsão de sentires, emoções, inquietações, medos e contradições a que todo o ser humano, com maior ou menor intensidade, está exposto.


 

 

Lídia Borges

(05/11/2022)