Por razões que não vêm agora ao caso, só ontem me chegou às mãos o “Túnica
Íntima”, livro de poemas da autoria de Silvia Mota Lopes.
Depois de uma leitura atenta, deixo as impressões primeiras que registei:
A meio caminho, entre a cabeça e o coração, há um lugar de liberdade
privilegiada onde foram agrupados os poemas em pequeno formato (2 ou 3 versos,
na sua maioria). Nesse espaço de sombra onde as «palavras pernoitam em
avolumadas hastes sonâmbulas» (pag. 14) é dada ao leitor autonomia bastante
para fazer significar as palavras, segundo o seu modo próprio de ler/ver. A
interferência da voz textual é mínima já que esta dá primazia à sugestão em
detrimento da afirmação.
Depois há o coração (uma pintura da autora) onde a fisiologia, veias e artérias, a mágoa, a fantasia, a inquietação, se entrelaçam para dar existência aos afetos que são, no meu entender, a “alma” deste conjunto de poemas. Temos a comprová-lo, não só a dedicatória: «Ao meu pai» como também diversas referências à família - à mãe à avó, etc...
No extremo oposto, fica o pensamento representado, nas imagens, pela cabeça
– rostos, olhos, expressões, cabelos em simbiose com elementos da Natureza
dialogam, à primeira vista, de forma harmoniosa. Destes diálogos despontam
fragmentos de memórias, reminiscência quase sempre a partir dos verbos
“lembrar/recordar”, cf. se pode ver nestas e noutras passagens, ao longo do
livro:
“Lembro-me do frio miudinho / da sombra e do silêncio […] / a minha mãe aquecia-me
os pés[…]”
“Lembro-me do colchão, do berço, do cubículo/e ali dormia/para não sentir o
seu tamanho.”
“Lembro-me das árvores carregadas de pássaros /que rebentavam em cânticos.”
“Lembro-me da sala em festa, da fotografia da família num álbum/que não
abro há algum tempo.”
“Recordo as árvores e vou inventando outras…”
[…]
“Túnica Íntima” – um livro de
Sílvia Mota Lopes, onde a linguagem parece revolver-se constantemente na
tentativa de abarcar a convulsão de sentires, emoções, inquietações, medos e contradições a
que todo o ser humano, com maior ou menor intensidade, está exposto.
Lídia Borges
(05/11/2022)


