domingo, 8 de janeiro de 2023

"Misericórdia"

 


É um daqueles livros que não mais nos larga. Cola-se-nos ao corpo como uma segunda pele e acompanha-nos para todo o lado. Tenho de admitir que não me foi fácil ler as 457 páginas que, em outro momento, menos doído, da minha vida, poderiam ser atravessadas num instante, pela capacidade de sedução natural da escrita, pela linguagem coloquial e simples, pela solidez do enredo, pelo realismo atroz que a todos atinge. É um daqueles casos  em que a brandura do dito consegue ser mais cortante que a mais afiada das facas. Demorei algumas semanas a lê-lo. Fui forçada a impor, a mim mesma, uma norma - de cada vez que ficasse acordada, de noite, a deambular pelas páginas lidas, a desconstruí-las, a refazê-las, a trazê-las para os meus domínios como coisas tácteis, como coisas minhas, interromperia a leitura, por uns dias. Mas o livro permanecia ali, pousado sobre a mesinha de cabeceira, chamava-me, lembrava-me constantemente que, fugir dele não era lenitivo para a dor que me atormentava, após uma perda irreparável como é sempre a partida de uma mãe. Penso, por vezes, não ter sido o melhor momento para me debruçar sobre esta leitura, pela problemática que aborda, mas agora que o terminei, tenho a sensação de que veio ao meu encontro, no momento certo, no momento em que eu mais precisava dele.

É de perdas irreparáveis que nos fala Lídia Jorge, neste Misericórdia. A ação decorre num lar de idosos, ironicamente chamado “Hotel Paraíso”. Contrariamente ao que se possa pensar, não é um romance fatalista, pessimista ou depressivo. É recorrente passar da lágrima ao riso numa mesma página, pelo caricato de certas situações retratadas. É narrado na primeira pessoa e baseia-se em acontecimentos reais, envolvendo a mãe da autora. Levanta questões fundamentais e atualíssimas sobre a (des)organização social, o envelhecimento, as dificuldades das sociedades ocidentais em lidar com os problemas dos idosos e das famílias, desde que horários de trabalho, cada vez mais incompatíveis com uma vida outra, vieram abalar os alicerces da instituição Família. A Ciência tem-se mostrado mais rápida a prolongar a vida das pessoas do que a Sociedade a criar estruturas de apoio aos beneficiários dessa proeza da evolução do Conhecimento. Os lares de terceira idade (com toda a humanidade ou desumanidade, o empenho ou o desleixo, o carinho ou a indiferença ou tudo isso junto) funcionam ainda nos mesmos moldes do pós-revolução industrial, um “mal necessário”, sem terem em conta que as pessoas do sec.XIX não são as pessoas de hoje. Bem sei que tudo isto faz parte do conhecimento geral, mas o diagnóstico não é o tratamento nem a cura. Tudo encalha no eterno problema da falta de dinheiro de que são acometidos os Governos quando se trata de melhorar a vida das pessoas, esquecidos da teoria (merecedora de um Nobel da Economia, em 1979) que aponta para o investimento nas pessoas como alavanca para o progresso de um país. Sem precisar a idade das pessoas. Seria descabido já que, tanto quanto se sabe, somos todos pessoas até à morte. Mas, no séc. XXI, continua a não haver dinheiro para os mais velhos serem pessoas e, muito menos, pessoas de hoje. Logo resta-lhes conformarem-se, guardar a um canto da boca a drageia de dormir, para a cuspir depois, beber às colheradas o purgante que lhe está reservado, após deixarem a vida ativa e profissional, mesmo que possuam ainda condições físicas, psicológicas e intelectuais para serem úteis aos outros, em determinadas tarefas.


  Misericórdia de Lídia Jorge (2022) é um grito de alerta ensurdecedor, um verdadeiro tratado sobre a dignidade, a ética, a humanidade, valores que se vão desvanecendo, num mundo globalizado, tomado pela ambição desmedida que se fixa unicamente no Quanto? Sem nunca se perguntar – Como?

 

 

                                                      Lídia Borges