É um daqueles
livros que não mais nos larga. Cola-se-nos ao corpo como uma segunda pele e acompanha-nos
para todo o lado. Tenho de admitir que não me foi fácil ler as 457 páginas que,
em outro momento, menos doído, da minha vida, poderiam ser atravessadas num
instante, pela capacidade de sedução natural da escrita, pela linguagem
coloquial e simples, pela solidez do enredo, pelo realismo atroz que a todos
atinge. É um daqueles casos em que a
brandura do dito consegue ser mais cortante que a mais afiada das facas. Demorei algumas
semanas a lê-lo. Fui forçada a impor, a mim mesma, uma norma - de cada vez que
ficasse acordada, de noite, a deambular pelas páginas lidas, a
desconstruí-las, a refazê-las, a trazê-las para os meus domínios como coisas tácteis, como coisas minhas, interromperia a leitura, por uns dias. Mas o livro permanecia ali, pousado
sobre a mesinha de cabeceira, chamava-me, lembrava-me constantemente que, fugir
dele não era lenitivo para a dor que me atormentava, após uma perda irreparável como é sempre a partida de uma mãe. Penso, por vezes, não ter sido o melhor momento para me debruçar
sobre esta leitura, pela problemática que aborda, mas agora que o terminei,
tenho a sensação de que veio ao meu encontro, no momento certo, no momento em que eu mais
precisava dele.
É de
perdas irreparáveis que nos fala Lídia Jorge, neste Misericórdia. A ação
decorre num lar de idosos, ironicamente chamado “Hotel Paraíso”. Contrariamente
ao que se possa pensar, não é um romance fatalista, pessimista ou depressivo. É recorrente passar da lágrima ao riso numa mesma página, pelo caricato de certas situações retratadas.
É narrado na primeira pessoa e baseia-se em acontecimentos reais, envolvendo a
mãe da autora. Levanta questões fundamentais e atualíssimas sobre a (des)organização social, o envelhecimento, as dificuldades das sociedades ocidentais
em lidar com os problemas dos idosos e das famílias, desde que horários de
trabalho, cada vez mais incompatíveis com uma vida outra, vieram abalar os
alicerces da instituição Família. A Ciência tem-se mostrado mais rápida a prolongar
a vida das pessoas do que a Sociedade a criar estruturas de apoio aos
beneficiários dessa proeza da evolução do Conhecimento. Os lares de terceira
idade (com toda a humanidade ou desumanidade, o empenho ou o desleixo, o
carinho ou a indiferença ou tudo isso junto) funcionam ainda nos mesmos moldes do pós-revolução
industrial, um “mal necessário”, sem terem em conta que as pessoas do sec.XIX não
são as pessoas de hoje. Bem sei que tudo isto faz parte do conhecimento geral, mas o diagnóstico não é o tratamento nem a cura. Tudo encalha no eterno problema da falta de dinheiro
de que são acometidos os Governos quando se trata de melhorar a vida das
pessoas, esquecidos da teoria (merecedora de um Nobel da Economia, em 1979) que
aponta para o investimento nas pessoas como alavanca para o progresso de um
país. Sem precisar a idade das pessoas. Seria descabido já que, tanto quanto se
sabe, somos todos pessoas até à morte. Mas, no séc. XXI, continua a não haver dinheiro
para os mais velhos serem pessoas e, muito menos, pessoas de hoje. Logo
resta-lhes conformarem-se, guardar a um canto da boca a drageia de dormir, para
a cuspir depois, beber às colheradas o purgante que lhe está reservado, após
deixarem a vida ativa e profissional, mesmo que possuam ainda condições físicas, psicológicas e intelectuais para serem úteis aos outros, em determinadas tarefas.
Misericórdia de Lídia Jorge (2022) é um grito de alerta ensurdecedor, um verdadeiro tratado sobre a dignidade, a ética, a humanidade, valores que se vão desvanecendo, num mundo globalizado, tomado pela ambição desmedida que se fixa unicamente no Quanto? Sem nunca se perguntar – Como?
Lídia
Borges
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