Na memória, alinhaste
com minúcia as mágoas
por ordem de grandeza,
alinhaste os
dias segundo a temperatura a humidade
a porosidade
dos solos;
abreviaste as
flores e os trigos, os trevos e os cardos
as dores as geadas os espantos os fervores,
cortaste a corda que mantinha no céu as estrelas de falso brilho.
Sobra-te esse
livro em branco
para ampliares, dos bosques, as sombras,
do descampado
da luz, os desertos,
uns e outros na disputa das páginas centrais.
Sim, traça teus assombros
de água
nos relevos do
real que reservaste à poesia.
Talvez leves
até ao fim a alquimia das mãos.
Talvez esqueças
definitivamente a voz dos versos,
suas baladas interiores.
Talvez o
coração encontre um modo outro
de se defender de tudo isto.
Lídia Borges
(pintura: óleo sobre tela, de minha autoria. Capa do II volume da Antologia de Contos de Natal - Nem sempre os pinheiros são verdes, Poética Editores.)
