ChatGPT
Quis ver como era e pedi-lhe
que me fizesse um poema.
Dei-lhe o título – Silêncio - e
esperei.
Ele fez.
Estava lá tudo
o que pode ser dito sobre o
silêncio
menos o silêncio propriamente dito.
Aquele que contém por dentro uma dor
uma alegria, um precipício
o canto renovado de um rouxinol,
o uivo que do vento se desata,
a aflição da água
no prenúncio da cascata.
Aliviada concluí: para já
a Arte, a Literatura, a Poesia
não estão ainda à mercê
de uma inteligência qualquer
feita a martelo e cinzel.
Lídia Borges
Tanto tempo passado sobre a Póvoa de agosto, o
mar mais belo e bravo que já vi, a areia que não se deixa levar pelas falas severas do vento norte, não se cola ao corpo molhado, não se deixa aparentar de poeira,
ainda que, nos primeiros dias de férias, descalça, debaixo dos dedos, uma dor fininha, a queixar-se. Depois o jogo do prego, horas
em círculo, com os irmãos e os primos, a manusear o prego, a fazê-lo dançar,
dar cambalhotas no ar e cair de bico espetado na areia para deleite do que joga
e impaciência dos que esperam a falha, a falta de jeito que faça cair o prego
de chapa na areia grossa, para terem a sua oportunidade de jogar. As
barracas, às riscas, alugadas, ano após ano, sempre as mesmas, no mesmo sector,
os mesmos vizinhos, os mesmos amigos, de ano para ano, menos crianças, mais
altos mais adiantados nos estudos. Os longuíssimos jogos de voleibol até
ao sol se pôr, as corridas para casa, em cima da hora do jantar. Os ralhetes
pela demora, a pele massacrada de sol e sal que é preciso acalmar com um banho
morno e um creme qualquer.
Agora, tanto tempo passado sobre esta Póvoa de Varzim da meninice e juventude, é a Póvoa de fevereiro, o centro do mundo. Os livros, sempre os livros, os escritores, o Pensamento, as Ideias velhas e novas, as histórias, os que vieram, os ausentes e os outros cuja presença se sente quase corpórea, trazidas por palavras comovidas de Saudade - José Luiz Sepúlveda – A sua biblioteca pessoal, para sempre na Póvoa de Varzim, após a doação do espólio por sua companheira de vida e poeta Carmen Yáñez. Em breve será possível visitá-la na Casa Manuel Lopes (antigo diretor da Biblioteca Municipal) que poderá vir a acolher também poetas e escritores em residências literárias.
Outra presença fortemente assinalada foi a de Ana Luísa Amaral. Todas as "mesas" tiveram como mote um verso da poeta que nos deixou, recentemente. Deste modo, foi fácil a quem pode estar nestas Corrente d’Escritas 2023, sentir a proximidade destes e de outros nomes que nos enriquecem humana e culturalmente, nos abrem portas e janelas para o Conhecimento, o Pensamento e nos fazem crer que o Belo é ainda possível, que sementes de esperança existem encobertas no solo seco dos escombros que pisamos, e onde muitos, indiferentes ao desamor (de todos os vírus, o mais brutal e mortal que se dissemina pelo mundo) rejubilam lá dos píncaros do Progresso, quando um chat de Inteligência Artificial responde, rápida e acertadamente a tudo o que se quiser saber, desde que enquadrado no esquema do pensamento único, despido de sentimentos, de emoções, de comoções, de demências e clemências, de ironias e loucuras, de devaneios e lucidezes. De humanidade.
Aliviada concluí: para já
a Arte, a Literatura, a Poesia
não estão ainda à mercê
de uma inteligência qualquer
feita a martelo e cinzel.
Lídia Borges

