Produzir na palavra
É cantar no poema
Todas as raízes
Deste chão.
Manuel Rui, in // Poemas em Novembro. Ano Um.1976
Capa da Revista "Correntes D'Escritas, 2023"
O menino de Huambo - Manuel Rui Monteiro - homenageado no Correntes D'Escritas deste ano, na Póvoa de Varzim.
Folheio a revista, de frente para o mar. É um
fevereiro, quase verão: o Sol ameno, o mar rebelde do norte (quem me dera ser onda), e todos os ventos amainados no coração de um poema turquesa.
Apetece transcrever parte do depoimento de Ivo Machado, que acabo de ler na referida revista, (pág. 38):
Não sei onde nasceu Manuel Rui. Em Coimbra, Huambo, Angra do Heroísmo ou Luanda? Não sei que idade tem. Vinte anos, cinquenta ou oitenta? Não sei se nasceu nas águas de um rio ou de um mar, mas num lugar onde as mulheres batiam no sisal em cima das pedras, as pedras que trazes contigo de ontem e carregas por todas as terras a caminho do amanhã. Não sei em que Tempo, mas foi contigo que aprendi os búzios
de búzios falaste quando chegaste e nos tornamos irmãos, desde então o irmão maior e me ensinaste a falar de rios e mar
de pedras
de capim
nesse dia olhei as tuas mãos e vi nelas o deslumbramento, olhei os teus pés e aprendi a andar sem molestar as pedras, ou os frutos caídos das árvores
[...]
Ivo Machado
***
Do Manuel Rui lembro a voz, de a ouvir em tantos anos seguidos, na Póvoa de Varzim, o andar pesado, nos últimos, o chapéu, a bengala, os olhos meigos. Do Manuel Rui lembro Ombela, uma fala de água límpida e boa que não descarta nuvens e desassossego de ventos e sílabas.
Eu?
Eu sou a chuva e trago todas as sílabas
e digo a palavra. Posso
falar a duração de todas as vidas e
todas as idades sem morte
ou fazer cair de um abacate num telhado
de calma com as minhas mãos de água a
atravessar as paredes
do tempo.
O fumo do fogo que passa por entre os
tectos
de capim no aroma da batata doce e
maçarocas assadas
nas mãos que eu quiser no meu poder de
ser a chuva
e adormecer com música de abelha as
crianças
que já não querem mais sonhar com
cazumbis
Eu sou a chuva! Antes das primeiras
coisas que brincam
com a falsa seriedade das essências
exactamente na mesma
nesses todos os lugares. Eu sou ombela a
mulher amada
de água com que me deslumbro comigo a
chover!
Manuel Rui, Ombela (2007:pág 12)
(Imagem: foto minha, hoje (tm.) Póvoa de Varzim)