quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Correntes que prendem e libertam


Produzir na palavra

É cantar no poema

Todas as raízes

Deste chão.

Manuel Rui, in // Poemas em Novembro. Ano Um.1976
Capa da Revista "Correntes D'Escritas, 2023"

 O menino de Huambo - Manuel Rui Monteiro - homenageado no Correntes D'Escritas deste ano, na Póvoa de Varzim.


Folheio a revista, de frente para o mar. É um
fevereiro, quase verão: o Sol ameno, o mar rebelde do norte (quem me dera ser onda), e todos os ventos amainados no coração de um poema turquesa.

Apetece transcrever parte do depoimento de Ivo Machado, que acabo de ler na referida revista, (pág. 38):

Não sei onde nasceu Manuel Rui. Em Coimbra, Huambo, Angra do Heroísmo ou Luanda? Não sei que idade tem. Vinte anos, cinquenta ou oitenta? Não sei se nasceu nas águas de um rio ou de um mar, mas num lugar onde as mulheres batiam no sisal em cima das pedras, as pedras que trazes contigo de ontem e carregas por todas as terras a caminho do amanhã. Não sei em que Tempo, mas foi contigo que aprendi os búzios

de búzios falaste quando chegaste e nos tornamos irmãos, desde então o irmão maior e me ensinaste a falar de rios e mar

de pedras
de capim

nesse dia olhei as tuas mãos e vi nelas o deslumbramento, olhei os teus pés e aprendi a andar sem molestar as pedras, ou os frutos caídos das árvores

[...]

Ivo Machado

***

Do Manuel Rui lembro a voz, de a ouvir em tantos anos seguidos, na Póvoa de Varzim, o andar pesado, nos últimos, o chapéu, a bengala, os olhos meigos. Do Manuel Rui lembro Ombela, uma fala de água límpida e boa que não descarta nuvens e desassossego de ventos e sílabas.

Eu?

Eu sou a chuva e trago todas as sílabas e digo a palavra. Posso

falar a duração de todas as vidas e todas as idades sem morte

ou fazer cair de um abacate num telhado

de calma com as minhas mãos de água a atravessar as paredes

do tempo.

 

O fumo do fogo que passa por entre os tectos

de capim no aroma da batata doce e maçarocas assadas

nas mãos que eu quiser no meu poder de ser a chuva

e adormecer com música de abelha as crianças

que já não querem mais sonhar com cazumbis

 

Eu sou a chuva! Antes das primeiras coisas que brincam

com a falsa seriedade das essências exactamente na mesma

nesses todos os lugares. Eu sou ombela a mulher amada

de água com que me deslumbro comigo a chover!

 

Manuel Rui, Ombela (2007:pág 12)


(Imagem: foto minha, hoje (tm.) Póvoa de Varzim)