quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Passa-lhe o mundo ao lado





Tudo foi [des]acontecendo

aos poucos.

Ficaram-lhe os cães

(que o seguem piamente)

e nos braços vastos cansaços. 


Encheram-se-lhe os pés de raízes,

o corpo mirrou, a voz apartou-se do som,

e os olhos, esses, perderam lonjuras, 

Agarrou-se à terra como a oliveira

que o vira crescer, fazer-se homem, envelhecer.


Passa-lhe o mundo ao lado - dir-se-ia -

não fosse falar por si a paisagem:

um campo amplo, despido,

a geada, película de inverno branqueando tudo,

o nevoeiro raso e, ao fundo, 


um velho podando cuidadosamente

anosas macieiras

como se capazes ainda de dar fruto.

 

 

Lídia Borges

(reeditado)