Uns diziam que ali era uma
prisão. Outros não.
Lá fora, o sol seduzia alguns homens e mulheres
que bebiam, comiam e dançavam.
Não sabia em que ali eu estava, mas via:
num dos lados, povoado em demasia, sobre cinzas,
homens e mulheres a deambular, transidos de frio,
buscavam um fio de vida.
Do outro lado, alguns homens e mulheres
bebiam, comiam e dançavam, debaixo do sol.
Eu pensava em palavras para o que via,
míssil, lama, sangue, lástima, desolação,
flor, luz, vinho, contentamento, luxúria, ilusão.
Podia escrever um poema, se quisesse.
Empolgado, ermo, de chuva ou de sol. Podia.
Porém, quando voltei a olhar, vi claramente
como crescia o Vazio naqueles ali(s)
de um e de outro lado do arame farpado.
Ele vinha, acérrimo, estender suas asas sobre
todos os homens e mulheres.
Não vi onde desnasciam as crianças.
Eram órbitas inatingíveis aos meus olhos.
Foi então que me deixei morrer. Ali,
onde não sei em que lugar estou.
Lídia Borges
