sábado, 25 de fevereiro de 2023

Ali

 

(pesquisa s/ ind. autoria)


Uns diziam que ali era uma prisão. Outros não.

Lá fora, o sol seduzia alguns homens e mulheres

que bebiam, comiam e dançavam.

 

Não sabia em que ali eu estava, mas via:

num dos lados, povoado em demasia, sobre cinzas, 

homens e mulheres a deambular, transidos de frio,

buscavam um fio de vida.

Do outro lado, alguns homens e mulheres

bebiam, comiam e dançavam, debaixo do sol.

 

Eu pensava em palavras para o que via,

míssil, lama, sangue, lástima, desolação,

flor, luz, vinho, contentamento, luxúria, ilusão.

 

Podia escrever um poema, se quisesse.

Empolgado, ermo, de chuva ou de sol. Podia.

Porém, quando voltei a olhar, vi claramente

como crescia o Vazio naqueles ali(s)

de um e de outro lado do arame farpado.

Ele vinha, acérrimo, estender suas asas sobre

todos os homens e mulheres.

 

Não vi onde desnasciam as crianças.

Eram órbitas inatingíveis aos meus olhos.

Foi então que me deixei morrer. Ali,

onde não sei em que lugar estou.



Lídia Borges