terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Arquitetura

 


Nunca eu vira coisa assim,

um leitor assanhado à bofetada

com uns versos criados por mim.

 

Olhar isto pelo lado engraçado

não me deixa menos preocupado.

Não sei como lê, como não lê. Será que vê?

 

Assim desastrado, 

ainda tropeça nos hiatos

entre estrofes, deixados.

 

E certo será o trambolhão.

Tarde de mais para me decidir:

deixo-o cair ou dou-lhe uma mão.

 

Não sei como me meto nestas babéis,                      

ainda me chamam a prestar declarações.

Os versos, os versos... fazem-me andar aos papéis.

 

"Bem vê, há que ter cuidado - dizem-me do lado -

Aparece sempre um ou outro leitor desavisado,

há que cumprir regras na construção do poema [ou do que for],

procurar a  forma justa,  a luz altaneira, o espaço liso,

enfim, a maneira

como fazem Souto Moura e Siza Vieira."

 

Uffa! Que desorientação!

Na queda quebrou os óculos? Deixá-lo.

Pelo menos salvou o coração.


Lídia Borges