quinta-feira, 9 de março de 2023

Húmus

Semeador no Pôr-do-Sol (1888),  

Vincent van Gogh


Hoje estou inteiramente aqui.

Nenhuma metáfora poderá coincidir

Com as sílabas do olhar

A antepor-se à escrita.

 

Chove e a chuva repisa sem dó

O solo já encharcado.

Gostava que passasse alguém no caminho

Junto da minha janela de outrora.

Um camponês, a enxada às costas

No regresso a casa, ao fim da tarde

Como se atravessasse paulatinamente

um poema de Fiama. 


O dia primeiro das novas sementeiras

escoando-se devagar para a noite.

Tudo assim certo, antiquíssimo, sereno.


Lídia Borges