Quando cheguei
Lá estava o primo Mário
Ainda mais magro do que
sempre fora.
Ali estava o primo Mário
Rodeado de rosas brancas.
A urna forrada a brancos linhos.
Apareceram todos.
O primo Mário morrera
Mas continuava ali
Rodeado de rosas brancas
e de rumorejos magoados.
Agora eram as exéquias
fúnebres.
- Eu sou católico e
acredito em milagres –
Dissera ao médico, dois dias antes
Agora eram os rituais
da despedida.
O aperto no peito, as lágrimas
sofreadas
As leituras e cânticos
Sob o plangor do piano.
Depois, as palavras e
os abraços
Mais abraços que
palavras.
Depois a saída de todos.
Tu ficaste tão sozinho,
primo Mário!
Sempre senti este
momento
Como o pináculo da
solidão humana.
Amanhã só as tuas
cinzas
- Quero-as em duas urnas cinerárias –
Disseras, dois dias
antes.
- Uma, com os meus pais. E a outra…
Estou casado contigo há
tanto tempo!
E a outra, na tua terra
que foi minha, também.
Que dirão os tios
Quando o virem chegar a
meio
de um Padre Nosso soletrado
no silêncio.
Lídia Borges (In Memoriam)
