terça-feira, 28 de abril de 2026

Cinzas

 


Quando cheguei

Lá estava o primo Mário

Ainda mais magro do que sempre fora.

 

Ali estava o primo Mário

Rodeado de rosas brancas.

A urna forrada a brancos linhos.

 

Apareceram todos.

O primo Mário morrera

Mas continuava ali

 

Rodeado de rosas brancas

e de rumorejos magoados. 

Agora eram as exéquias fúnebres.

 

- Eu sou católico e acredito em milagres –

Dissera ao médico, dois dias antes

Agora eram os rituais da despedida.

 

O aperto no peito, as lágrimas sofreadas

As leituras e cânticos

Sob o plangor do piano.

 

Depois, as palavras e os abraços

Mais abraços que palavras.

Depois a saída de todos.

 

Tu ficaste tão sozinho, primo Mário!

Sempre senti este momento

Como o pináculo da solidão humana.

 

Amanhã só as tuas cinzas

- Quero-as em duas urnas cinerárias –

Disseras, dois dias antes.

 

- Uma, com os meus pais. E a outra…

Estou casado contigo há tanto tempo!

E a outra, na tua terra que foi minha, também.

 

Que dirão os tios

Quando o virem chegar a meio

de um Padre Nosso soletrado no silêncio.


Lídia Borges (In Memoriam)