quarta-feira, 15 de março de 2023

Jangada

 

Surrealismo, (s/ ind. autoria)


O poema navega.

A água própria para rãs, juncos e lírios,

 

Leva-me o poema,

jangada,  chão movediço 

entre mim e a água. Toda a água.

Como se não pudesse eu

comungar da Natureza

como rãs, lírios e juncos.

 

O poema leva-me 

atravessa a água dos sentidos

condena-me às metáforas de sempre

mantém-me no limbo

expulsa-me da minha forma latente 

de rã, lírio, junco,

mas não confirma a minha realidade.

 

Rouba-me à água.

Deixa-me suspensa nesta secura branca

de tinta e papel.

Leva-me,


Começa a doer insuportavelmente

a minha presença 

deste lado das palavras.


Lídia Borges