quinta-feira, 16 de março de 2023

Azul-cinza

 



O ruído perceptível das folhas

a rasgar os ramos do rododendro

tensos, enredados em febre e vento,

os teus olhos rajados de silêncio,

resíduos cromáticos de luz

errantes, por aqui e por ali.

 

O meu jeito de ser memória e êxtase

no tumulto da sede

de vozes desaparecidas.

 

E este azul-cinza, hoje,

tão desigual a outros,

no momento em que arrumo

cuidadosamente

ecos, lumes, alucinações e flores

sobre jazigos silentes

ao sol vacilante de março.


Lídia Borges

(pintura: Sally Rosenbaum)