domingo, 16 de abril de 2023

A certas horas

 


A frialdade da onda hertziana vai entrar-me funda
na orelha adentro como aço fino com palavra na ponta 
[…]

 Carlos Quiroga

 




Sou capaz de imaginar, a certas horas, a tua solidão.

O cadeirão junto à janela onde te sentas,

as almofadas a denunciarem levemente

o peso do corpo,

o copo vazio, o cinzeiro cheio, o cigarro apagado.

Premeditações.

 

Nas paredes ligeiras impressões de horas habitadas

os livros por ler desalinhados nas estantes, 

os quartos sem desarrumos recentes.

 

Sou capaz de ver, a certas horas, os segredos guardados

na tua solidão…

Não. Não escrevas já o meu nome.

Tu não conheces o meu nome,

não podes dizer quem sou, o que sou.

 

Experimenta dizer o que não sou. Assim:

Não é uma pedra, não é um sapato

Não é uma maçã, uma equação…

 

Sou capaz de imaginar a tua imaginação

às voltas sobre os telhados e os pátios da cidade

que dão para a tua janela,

sujos de detritos, pombos e gatos,

vasos de barro quebrados e planta nenhuma, 

caixotes desengonçados, garrafas de gás, 

arames, 

óxidos, fuligens, ferrugens.

 

Sou capaz de imaginar, a certas horas...


Lídia Borges

16/04/2023