A frialdade da onda hertziana vai entrar-me funda
na orelha adentro como aço fino com palavra na
ponta […]
Sou capaz de
imaginar, a certas horas, a tua solidão.
O cadeirão
junto à janela onde te sentas,
as almofadas a
denunciarem levemente
o peso do corpo,
o copo vazio, o
cinzeiro cheio, o cigarro apagado.
Premeditações.
Nas paredes ligeiras
impressões de horas habitadas
os livros por
ler desalinhados nas estantes,
os quartos sem
desarrumos recentes.
Sou capaz de ver, a certas horas, os segredos guardados
na tua solidão…
Não. Não
escrevas já o meu nome.
Tu não conheces
o meu nome,
não podes dizer
quem sou, o que sou.
Experimenta
dizer o que não sou. Assim:
Não é uma
pedra, não é um sapato
Não é uma maçã,
uma equação…
Sou capaz de
imaginar a tua imaginação
às voltas sobre
os telhados e os pátios da cidade
que dão para a tua
janela,
sujos de
detritos, pombos e gatos,
vasos de barro
quebrados e planta nenhuma,
caixotes desengonçados, garrafas de gás,
arames,
óxidos, fuligens, ferrugens.
Sou capaz de imaginar, a certas horas...
Lídia Borges
16/04/2023
